Es un documento sumamente extenso, pero que conviene presentarlo en su totalidad.
CARTA PASTORAL SOBRE LOS CURSILLOS DE CRISTIANDAD
D. Antonio de Castro Mayer,
por gracia de Dios y de la Santa Sede Apostólica, Obispo Diocesano de Campos,
Al
Rvmo. Clero Secular y Regular, a las Rvdas. Religiosas, a la Venerable
Orden Tercera de Nuestra Señora del Monte Carmelo, a las Asociaciones de
piedad y apostolado, y a los fieles en general de la Diócesis de
Campos.
Saludo, paz y bendición en Nuestro Señor Jesucristo.
CARÍSIMOS COOPERADORES Y AMADOS HIJOS.
1.
DE ALGÚN TIEMPO a esta fecha, han habido frecuentes manifestaciones de
perplejidad y desasosiego, por parte de numerosos fieles de Nuestra
Diócesis, a propósito de un Movimiento nuevo de apostolado, que se viene
difundiendo en los medios católicos brasileños. Presentando una
espiritualidad en muchos puntos diferente de la tradicional, recurriendo a métodos de formación que se dicen inspirados en las modernas ciencias psicológicas, suscitando conversiones inesperadas, aunque marcadas por un halo de singularidad, este Movimiento ha despertado extrañeza en muchas de Nuestras ovejas.
Concomitantemente, en conversaciones con sacerdotes y laicos, y también por medio de correspondencia, hemos recibido
pedidos instantes de orientación sobre el asunto.
Nos referimos, amados hijos, a los llamados “CURSILLOS DE CRISTIANDAD”.
Observaciones preliminares2. Frecuentemente se afirma que las actividades de los Cursillos de Cristiandad están envueltas en cierto sigilo. No obstante, hay documentación escrita al respecto, aunque oficial, que ayuda a formar un concepto sobre este nuevo sistema de apostolado.
Las publicaciones de los Cursillos son muy
variadas. Algunas son fáciles de entender, y contienen afirmaciones inocuas o hasta dignas de aplauso. Otras parecen claras para el lector poco versado en asuntos de teología y moral; pero para el perito en tales campos de la cultura, presentan, por detrás de una exposición aparentemente accesible y sobre cualquier objeción, algunos implícitos y matices que piden un análisis más cuidadoso y circunstanciado.
Todo lleva a
creer que la misma desorientación se observa en los propios triduos cursillistas [1], ya que cada cursillo es el reflejo natural de las publicaciones en que sus dirigentes se hayan inspirado. Así, nada
más normal de lo que la existencia de los cursillos a que nada se pueda objetar, al lado de otros que inspiran preocupación, y de otros finalmente que son simplemente censurables.
Es necesario declarar, después del inicio, que esta Carta Pastoral no busca hacer a todo y cualquier cursillo los mismos reparos, ni mucho menos, atingir a todos los cursillistas, entre los cuales ciertamente hay personas de noble intención.
Entretanto, el Movimiento no puede ser visto como un conjunto de cursillos
inarticulados entre sí. Al contrario, él constituyó una vasta red, dentro de la cual naturalmente se establece un intercambio intenso, e esse
intercâmbio dá azo a que se difundam, por toda a rede, tanto os
escritos e atitudes que não merecem censura, quanto os que a merecem.
Tal situação é nociva, especialmente para as pessoas inadvertidas e de
boa fé que assistam a um cursilho e que, levadas pela confiança fundada
no que viram de bom, se tornem propensas a não analisar, com a devida
cautela, o que de censurável possa haver no Movimento. Dentre essas
pessoas, muitas ficam expostas a serem apanhadas desprevenidas .por um
contágio ideológico que elas saberiam discernir e repelir, se viesse de
outras fontes.
Visto assim, no conjunto de seus traços bons e
maus, o Movimento de Cursilhos de Cristandade inspira preocupação, quer
quanto aos seus aspectos maus, quer quanto ao que há de precário em seus
aspectos bons. Tanto mais, quanto esses aspectos maus não têm, como
ponto de origem, apenas más influências regionais, mas publicações
oficiais e de peso, emanadas em grande parte do próprio centro mundial
de Cursilhos. O fato de estas procederem, pelo menos em larga parte, da
Espanha (2), mostra que o problema cursilhista não se situa apenas na
fronde, mas na raiz da árvore, afetando pois o todo enquanto todo. Esta é
a razão pela qual, reconhecendo embora, e com prazer, o valor positivo
de muitos elementos que há em Cursilhos, pareceu-Nos necessário apontar
esta mescla de bem e mal que neles existe. Pois a mistura de bem e mal,
quando procede da raiz, é de molde a comprometer os frutos produzidos
pela árvore toda.
Eis porque, amados filhos, achamos oportuno
apresentar-vos algumas observações a respeito desse novo Movimento
católico, que, esperamos, vos sejam úteis.
Nossas observações
consideram primeiramente o que é tido como essencial na doutrina de
Cursilhos. Ponderamos, depois, a aplicação dessa doutrina no campo
moral. E, enfim, analisamos a tendência esquerdizante manifestada em
certos círculos cursilhistas no que tange a questões de ordem política,
econômica e social.
Parte 1: BASE DOCTRINARIA DE LOS CURSILLOS
La meta del Movimiento
3.
REGISTREMOS, ANTES de tudo, amados filhos, a intenção explícita dos
fautores de Cursilhos de Cristandade. Ela pode ver-se, sobretudo, na
famosa Carta Pastoral "Los Cursillos de Cristiandad, instrumento de
renovación cristiana", do Exmo. Revmo. D. João Hervás, Bispo castrense
espanhol, considerado o grande promotor de Cursilhos. Expõe D. Hervás
nessa Pastoral, extensamente, as várias correntes teológicas suspeitas
que surgiram ao longo dos séculos na Igreja, e procura mostrar como
Cursilhos se distinguem de todas elas. Analisa os inventos da psicologia
moderna, amplamente utilizados pelo método por ele preconizado. Insiste
D. Hervás em que se apoiou sempre em autores ortodoxos.
Cursilhos
pretendem, pois, ser um método de formação e apostolado moderno, não
porém modernista. O que almejam é impedir a fratura entre a vida e a Fé
cristã, que, segundo Pio XII, atormenta o homem moderno (D. Hervás, o.
c., p. 113). Desejam portanto Cursilhos adaptar o ensino tradicional às
novas condições em que vive o homem hoje, para facilitar-lhe a adesão a
Jesus Cristo.
Como se vê, nada há que censurar na meta que Cursilhos se propõem.
El triduo cursillista
4.
Para melhor se entenderem outras observações que iremos fazer,
indiquemos aqui a ordenação do tríduo cursilhista. Inicia-se ele com um
retiro espiritual, que se estende da noite de chegada até a Missa da
manhã seguinte. Tem por finalidade este retiro espiritual, "despertar a
consciência moral do cursilhista e fazer-lhe sentir o desejo de se pôr
na graça de Deus" (D. Hervás, "Manual de Dirigentes", p. 87). Feita a
preparação no retiro espiritual, passa-se à formação cursilhista,
propriamente dita. Esta se realiza, sobretudo, mediante conferências,
chamadas rolhos, que se distribuem pelos três dias, cinco em cada dia,
mais a meditação da manhã, e, no último dia, o ato de clausura.
É
interessante saber porque as conferências dos cursilhos se denominam
rolhos. Ao explicá-lo, D. Hervás, tanto na sua citada Carta Pastoral,
quanto no "Manual de Dirigentes", indica o ambiente próprio dos
cursilhos, que se fazem numa orientação horizontal, igualitária. Diz D.
Hervás, na sua Pastoral, que as lições "terminaram chamando-se, com
oportunidade e humor juvenil, "rolhos", para dar a entender que se foge à
gravidade de conferências acadêmicas e que não se quer adotar o tom de
cátedra" (p. 56). E, no "Manual de Dirigentes": "Deu-se, em Cursilhos,
tradicionalmente, o nome de "rolho" às intervenções didáticas dos
professores, com o fim de impregnar o ambiente de um tom de confiança,
naturalidade, camaradagem, desportiva e adaptação aos assistentes. Com
isso, além de outros pormenores pedagógicos, intenta-se encurtar
distâncias entre docentes e discentes; evita-se a desagradável impressão
que produz em alguns a gravidade de uma conferência, sobretudo por
tratar-se de leigos, às vezes de categoria social igual ou inferior à
dos ouvintes" (p. 219 ) .
Expresiones ortodoxas
5. De acordo
com a intenção explícita dos fautores de Cursilhos, não faltam nas
conferências, ou rolhos, do tríduo cursilhista, numerosas passagens
conformes ao ensinamento tradicional da Igreja. Por exemplo, no rolho
"Graça habitual" (3), que é "o fundamento de todos os demais" ("Manual
de Dirigentes", p. 107),
- declara-se que a Graça é "a comunhão
permanente que, por Cristo, Deus estabelece gratuitamente entre Ele e o
homem, porque o ama, e que cria em nós uma vida nova" (p. 24);
-
salienta-se que a Graça é "um dom sobrenatural", que "o homem não pode
exigi-la de Deus, não pode reclamá-la como se fosse algo devido à
natureza" (p. 25 e outros lugares);
- afirma-se que pela Graça
Deus chama "todos os homens à filiação divina" e os faz "filhos de Deus"
(pp. 29, 40), "amigos de Deus" (p. 30), realizando "em nós uma nova
criação, ainda mais grandiosa do que a primeira" (p. 30);
-
ensina-se que a Graça nos dá "uma vida nova" (p. 24), nos faz
"participantes da natureza divina" (p. 45), dá-nos o gozo da presença
amiga de Deus em todos os momentos da vida (p. 32);
- diz-se que a
Graça dá à alma a santidade fundamental (pp. 35-36) e nos incorpora a
Jesus Cristo, que nos torna seus irmãos, como filhos de Deus, e cuja
vida devemos reproduzir em nós (pp. 37 ss.);
- declara-se nossa condição de templos do Espírito Santo (p. 44), e a posse de Deus na bem-aventurança eterna (p. 42).
Pontos
de doutrina como estes, que se encontram nos rolhos, são,
fundamentalmente, ortodoxos e de molde a dar uma formação sólida ao fiel
que sobre eles medite e os transponha para sua vida prática.
Os
outros rolhos se reportam a este fundamental. Têm, mesmo, observa D.
Hervás no "Manual de Dirigentes" (p. 107), muitas afirmações que se
tornariam inexplicáveis sem o fundamento que lhes dá o rolho sobre a
Graça habitual. Como neste último, nos demais rolhos existem também
numerosos pontos de doutrina ortodoxos (4).
Expresiones que causan perplejidad
6.
Sem embargo, cumpre-Nos observar que várias expressões do rolho "Graça
habitual" nos causam perplexidade e nos infundem o temor de que
Cursilhos venham a prejudicar, com efeitos nocivos nas obras de
apostolado, uma formação católica sem jaça.
Assim, o rolho (do
Secretariado Nacional da Espanha, como dissemos à nota 1) apresenta a
esmola como algo humilhante (p. 30), para salientar a bondade de Deus,
que não nos dá a Graça como esmola, mas nos eleva a um plano de
igualdade com Ele (5).
Em primeiro lugar, não é conforme ao espírito cristão, considerar a esmola como algo, em si, humilhante (6).
Em
segundo lugar, não corresponde à realidade dizer que a elevação que
Deus nos concede, mediante a Graça, não esteja no gênero da esmola. Pois
a Graça é totalmente gratuita, em nada devida à natureza — como a
esmola, de si, é algo que não é devido, ao menos àquele determinado
pobre.
Além disso, também a elevação do homem, pela Graça, não o
coloca em plano de igualdade — empregada a palavra sem qualquer matiz —
com Deus. O homem será sempre filho adotivo. Por mais profunda que seja a
transformação que a Graça opera na natureza, jamais lhe concede uma
essência divina que dele faça, substancialmente, um filho de Deus. Por
isso, toda a confiança e mesmo intimidade que temos com o Pai Celeste
não deve levar-nos a esquecer a distância infinita que medeia entre Ele e
nós. De maneira que tememos seja deformante, para a alma do fiel,
propor-lhe que dê a Deus um tratamento de igual para igual, como se
aventa no rolho. Somos filhos de Deus, nEle depositamos toda nossa
confiança, a Ele votamos nosso amor e Lhe fazemos todas as nossas
confidências, persuadidos de que Ele é o Senhor, bondoso e infinitamente
misericordioso, mas digno sempre de que Lhe tributemos toda honra e
toda glória.
Censuras a prácticas consagradas por la Iglesia
7.
Sin presentar los nombres, de hecho el rollo sobre la Gracia habitual
hace una censura a San Simeón Estilita, que pasó buena parte de su vida
sobre una columna, y a San Luis de Gonzaga, singularmente alabado por el
gran recato al mirar (7). Y concluye el tema, diciendo que "es posible
que haya habido santos que eran sujetos extraños; sin embargo, fueron
santos A PESAR DE SER EXTRAÑOS" (destacado en versalita es nuestro). A
frase censura, portanto, o que vê como extravagância de certos Santos.
São, no entanto, Santos que a Igreja propõe à admiração dos fiéis,
inclusive no que o rolho qualifica de extravagância.
E não é este
o único lugar em que Cursilhos se referem com menosprezo a costumes
piedosos aplaudidos pela Igreja. No rolho "Obstáculos à vida da Graça"
(p. 26), ridicularizam-se "os penitentes medievais que se flagelavam e
torturavam continuamente". E uma "Via Sacra", publicação oficial de
Cursilhos no Brasil (edição do Secretariado Nacional, São Paulo, 1969),
mofa das mulheres que "contam inúmeros minutos do dia nas contas do
Rosário, mas completam depois a reza com uma ladainha de maledicências
da vida do próximo" (8.a estação, p. 18). Isso, dito assim, sem a menor
ressalva das senhoras verdadeiramente piedosas, insinua no espírito do
leitor uma generalização que Nos parece censurável.
8. Ainda no
rolho "Graça habitual", encontramos (p. 42) uma condenação daqueles
fiéis que se desinteressam totalmente do mundo, para cuidar apenas das
realidades sobrenaturais (8). Semelhante julgamento, que atinge por
exemplo os eremitas do deserto — cristãos que fugiam ao mundo, para só
cuidar das realidades sobrenaturais — incute-Nos, amados filhos, temor
de que Cursilhos não dêem do mundo uma visão ascética verdadeira. Tal
temor corrobora o receio que, como dissemos, Nos infunde a sua maneira
de se reportarem a exercícios de piedade tradicionais e excelentes no
afervoramento dos fiéis.
É curioso notar que D. Hervás, na
introdução ao "Manual de Dirigentes" (p. 44), censura aqueles que,
levados por um entusiasmo faccioso, estabelecem comparações injustas
entre Cursilhos e outros métodos de espiritualidade, como os Exercícios
de Santo Inácio. Declara ele que tais "comparações são sempre odiosas, e
ninguém tem o direito de suscitar questões inúteis que podem lesar a
justiça, a caridade ou a mais elementar prudência", pois se trata de
"métodos distintos", que por vias legítimas "buscam a glória de Deus e a
santificação das almas". — No entanto, como vemos, os autores do rolho
"Graça habitual" não seguiram tal conselho, pois estabeleceram, entre
Cursilhos e a espiritualidade eremítica, comparações "odiosas", que
"lesam a justiça, a caridade e a mais elementar prudência", não sem
prejuízo da formação dada aos cursilhistas.
Extraño Humanismo
9.
Talvez levado pelo desejo de aproveitar as achegas da psicologia
moderna, toda voltada para o homem, o rolho "Graça habitual", de modo
geral, é também concebido em função do homem. A Graça é apresentada como
aquilo que conduz o homem à felicidade e à plenitude. "Em Cristo e no
Cristianismo pode o homem encontrar a plenitude, saciar seus anelos
inesgotáveis de encontrar a paz" (p. 19).
Tal perspectiva é mais
patente no texto que vamos citar, que nos deixa sumamente perplexos
quanto à formação católica proporcionada em Cursilhos: Diz o rolho, à p.
24: "Há um momento no evangelho em que Cristo proclama abertamente
porque veio ao mundo, nos descobre um segredo muito importante, o
segredo de Deus: Porque Este se fez homem, porque deixou seu esplendor
para tomar a forma de servo e misturar-se conosco, como um de nós?
Cristo nô-lo diz claramente, e isso é muito importante: é essencial que
nos inteiremos do motivo que trouxe a Cristo aqui. Diz ele: "eu vim para
que tenham vida e a tenham abundantemente". Só PARA ISSO: para que
tenhamos vida, para que gozemos com esta vida nova que é a Graça. Para
isso veio Cristo, PARA NADA MAIS" (o destaque em versalete é nosso).
Sem
prejulgar as intenções, notemos que a encenação com que se introduz a
declaração do grande segredo de Deus, a ênfase com que se inculca que
Jesús vino al mundo solo para dar al hombre una vida más abundante, con
las dos expresiones que destacamos –SOLO PARA ESTO, y PARA NADA MÁS–
tienden a crear en los oyentes la persuación de que Dios encarnado,
Jesucristo, está exclusivamente al servicio del hombre, de su
perfección, de su plenitud.
10. Não há dúvida de que Jesus Cristo
veio para nos remir, para nos dar, de novo, a vida que perdêramos com o
pecado. Santo Tomás diz até que o Filho de Deus não Se teria encarnado,
se não houvesse antes a culpa original (S. T. 3, q. 1, a. 3). Podemos,
por isso, legitimamente dizer que o motivo da Encarnação do Verbo foi a
Redenção do gênero humano. Não, porém, de maneira a excluir a meta
última dos atos do Divino Salvador. Na realidade, ao vir ao mundo, tinha
Jesus Cristo diante de Si, em primeiro lugar, a glória do Padre Eterno.
E, com sua paixão e morte, Jesus, antes de mais nada, dá a Deus
Altíssimo reparação condigna pelos direitos divinos lesados com os
pecados dos homens. Volta-Se, primeiro, para Deus, embora no mesmo ato,
com plena intenção e amor, redima misericordiosamente os homens. É assim
que a Sagrada Escritura nos apresenta a vinda de Jesus ao mundo. De
fato, declara o Espírito Santo que todos os sacrifícios da Antiga Lei
eram incapazes de satisfazer à Justiça divina. Deus os rejeita. Vem
então seu eleito para fazer a sua Vontade (S1. 39, 7-9). Esse eleito de
Deus é Jesus Cristo, como ensina São Paulo (Heb. 10, 9). Eis que o
primeiro motivo da Encarnação é oferecer ao Altíssimo uma vítima
proporcionada à Divindade. Como decorrência do ato do Divino Salvador —
decorrência intencionada, que justifica o que rezamos no Credo da Missa,
"por nós e nossa salvação, desceu dos Céus" — auferem os homens a
possibilidade de eles também apresentarem a Deus uma adoração condigna, e
de chegarem, em conseqüência, ao prêmio da vida eterna.
Semelhante
verdade é fundamental na formação católica. Não pode ficar entre os
pressupostos, e muito menos pode ser excluída, como no texto do rolho
que citamos. O homem foi feito para Deus, para sua glória. Seu primeiro
dever é buscar a glória de Deus, o Reino de Deus, mediante a obediência à
santíssima vontade de Deus, como pedimos no Padre Nosso: "seja feita a
vossa vontade, assim na terra como no Céu".
Tais verdades, amados
filhos, devem ser inculcadas com insistência ainda maior, numa época de
secularização, como a nossa, em que se enaltece, acima do justo, a
dignidade humana.
11. É legítimo que Cursilhos procurem dar uma
formação católica a partir de especulações sobre o homem. Entretanto,
tal formação precisa fixar em Deus o polo de referência na apreciação do
bem, da perfeição, do valor de qualquer ser ou pessoa. São as relações
com Deus que criam, no homem, os deveres religiosos, a necessidade da
adoração, e a vassalagem ao Senhor de todas as cousas. São tais relações
que determinam o procedimento moral, o reconhecimento do Supremo
Legislador, a cuja vontade deve o homem ajustar todos os seus atos. Uma
formação católica não pode deixar de destacar todas estas verdades, em
cuja aceitação amorosa consiste a perfeição do homem. É o que não vemos,
de modo claro e inequívoco, no conjunto das publicações de Cursilhos
(9).
Concepción teilhardista del mundo
12.
Causam-Nos também perplexidades, amados filhos, as considerações que o
rolho "Graça habitual" (trata-se sempre da edição espanhola de 1968) faz
acerca dos desígnios de Deus a respeito do mundo terreno em que
vivemos.
É certo que Deus Nosso Senhor nos colocou neste mundo
para que nele vivêssemos. É certo que, para nele vivermos, devemos
providenciar os bens que tornem possível uma vida consentânea com nossa
natureza, constituída de alma e corpo. Em outras palavras, é natural que
o homem crie uma cultura, uma civilização. Não obstante, o mundo será
sempre um meio, será sempre uma moradia passageira, como diz São Paulo:
"non habemus hic manentem civitatem" (Heb. 13, 14). O homem foi feito
para o Céu, a moradia futura, que está na meta de nossos desejos (cf.
São Paulo, ib.), e que esperamos alcançar com o auxílio da Graça divina.
Daí a expressão de Nosso Senhor Jesus Cristo: "que adianta ao homem
ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?" (Mat. 16, 26), ou
estoutra: "quem ama a sua alma, perde-a", quem a odeia neste mundo a
salva (Jo. 12, 25). A Igreja sintetizou a doutrina revelada, na frase
que lemos na oração do terceiro domingo depois de Pentecostes: "sic
transeamus per bona temporalia, ut non amittamus aeterna" — "passemos
pelos bens temporais de maneira a não perder os eternos". Em outras
palavras, o mundo, com todos os seus bens, toda a sua cultura,
desenvolvimento e plenitude, não é o fim do homem. Digamos, é um fim
intermediário, que deve subordinar-se ao fim último. Por isso, a Igreja
canoniza também os Santos que fugiram do mundo para levar vida eremítica
ou para enclausurar-se em mosteiros contemplativos.
O rolho "Graça habitual" parece ter outra concepção do mundo, e insinuar uma ascética diferente da ascética tradicional (10).
13.
Com efeito, o rolho, muito louvavelmente, exalta a excelência da Graça e
da vida de união com Deus, entidades sobrenatu rais. Surge, então,
logicamente, a dificuldade: "então, não nos interessa este mundo?" (p.
42). Na resposta, o rolho, primeiro censura os Santos que fugiram do
mundo levados por "uma religiosidade desencarnada, angelista, na qual só
contam as realidades sobrenaturais" (11). Tal maneira de proceder, diz o
rolho, não se conforma com o "pensamento de Deus" (cf. nota 8 do tópico
número 8).
14. Depois, quando o rolho passa para a parte
positiva, la expresión no clara, no es clara, y se expone a una
interpretación teilhardista,
según la cual el designio de Dios se volvería para el maximo desarrollo
de las energías del mundo, en beneficio de la dignidad humana,
de la unión fraterna y de la libertad. Leiamos:
"A Graça e o
anseio de alcançar nossa herança definitiva não fazem de nós uns
misantropos alheados da vida, nem uns orgulhosos desprezadores da
atividade humana. Muito pelo contrário. Sabemos que a Graça é algo que
se encarna em nós, é uma realidade que, longe de falsificar ou reduzir
nossa humanidade, faz de nós homens vivos, nos faz plenamente homens.
Esta amizade viva com Deus é o que nos possibilita nosso compromisso com
o mundo, porque nos dá a autêntica liberdade. Nada de quanto é humano
nos é estranho. Mais ainda: amamos este mundo, porque é obra de Deus
nosso Pai, que deseja que o homem o aperfeiçoe, o enobreça, o humanize.
Sabemos que toda atividade humana tem um fim muito claro: aperfeiçoar o
homem, desenvolver quanto há nele de abertura à verdade, ao bem, ao
amor, libertá-lo de todas as opressões de tipo físico, moral, político,
social, espiritual, que impedem um verdadeiro exercício da liberdade. É
Cristo quem nos associa à sua missão de redimir plenamente o homem, ao
dar-nos consciência de nossa plena e sobrenatural solidariedade com
todos os homens. Trabalhando para o bem da humanidade, transformando o
mundo até conseguir o máximo desenvolvimento de suas energias, voltando
nossos esforços em favor de "a dignidade humana, a união fraterna e a
liberdade", sabemos, como diz o Concílio, que estamos "preparando o
material do reino dos céus" e levando a cabo "o desígnio de Deus" (p.
43).
Dizemos que a exposição não é clara. E, de fato, parece
insinuar que a redenção de Cristo tem por fim "dar-nos consciência de
nossa plena e sobrenatural solidariedade com todos os homens" e, como
meta última, atender à dignidade humana, obter a união fraterna e a
liberdade. Enfim, ao propor a relação do fiel com o mundo, em vista de
seu destino eterno, o rolho não usa de expressões que afastem toda
ambigüidade.
Dizemos que a exposição se presta a uma
interpretação teilhardista. De fato, o reino dos céus, como se propõe no
texto, dá a impressão de ser o termo feliz das transformações do mundo,
mediante o aproveitamento de todas as suas energias em favor da
dignidade, da união fraterna e da liberdade. Cursilhos, nessa passagem,
parecem conceber a boa ordenação temporal, não como um fator propício à
salvação das almas, mas como um elemento integrante da Redenção e do
Reino dos Céus. Não cremos que semelhante concepção se oponha à de
Teilhard de Chardin, cuja teoria coloca, no termo da evolução do mundo, a
Jesus Cristo, como síntese de perfeição que absorve todo o universo
(12).
15. Observemos, outrossim, que, apesar do Monitumn da Santa
Sé (13) que torna manifesto o caráter suspeito de suas obras, Teilhard
de Chardin es un autor de muy buena acogida en los medios cursillistas,
sea para fundamentar opiniones (14), sea para servir a la formación
doctrinária de los miembros del Movimiento (15). No mesmo sentido, o
Beneditino D. Jerônimo de Sá Cavalcante, no "Jornal da Bahia", de 25 de
agosto de 1970, à p. 5, atesta que "um grupo de cursilhistas do Rio de
Janeiro está se reunindo semanalmente [...] a fim de estudar a obra do
grande cientista e pensador francês, o jesuíta Teilhard de Chardin".
A aproximação do teilhardismo é mais uma razão dos temores que temos com relação à obra de Cursilhos.
16.
Uma última observação, amados filhos, sobre esse tópico. Ele
justificaria a "inserção" do Clero na ação política para fins
revolucionários. Pois, obrigação imprescindível do Clero é colaborar na
obra redentora de Jesus Cristo. Se esta inclui, fundamentalmente, um
empenho de todos os esforços no sentido de "transformar o mundo até
conseguir o máximo desenvolvimento de suas energias", e de "libertar o
homem de todas as opressões de tipo [...] político, social", etc., não
se poderia negar ao Clero o direito e mesmo o dever de "engajar-se" na
ação política para fins revolucionários. Daí para a "teologia da
violência" e para o terrorismo, seria um passo (16).
Fe vivencial en oposición a la Fe intelectual
17.
Segundo o "Manual de Dirigentes", de D. João Hervás, Cursilhos estão na
linha do kérigma (17), isto é, do anúncio jubiloso da salvação (p. 99,
em nota). Por isso, são os rolhos "intencionalmente incompletos, sob o
ponto de vista da exposição doutrinal" (p. 100, em nota), uma vez que o
kérigma anuncia o acontecimento da salvação, sem explicá-lo, e
destina-se à conversão ("Temas do II Encontro Nacional de Secretariados
Diocesanos de Cursilhos de Cristandade do Brasil", Secretariado Nacional
de Cursilhos de Cristandade do Brasil, 1970, p. 47).
A maneira,
amados filhos, como as publicações cursilhistas, das mais autorizadas,
concebem o kérigma, e o opõem à fé intelectual, que aceita as verdades
reveladas porque Deus as revelou, só faz aumentar nossas apreensões.
Colocando lado a lado o que o I Concílio do Vaticano ensina sobre a fé,
início da salvação, e a fé vivencial preconizada por Cursilhos,
percebereis, amados filhos, que o ensinamento deste Movimento
dificilmente se ajusta ao que o Magistério da Igreja definiu.
De
fato, a fé, que é o início da salvação, o I Concílio do Vaticano, na sua
Sessão 3, cap. 3, definiu-a como sendo uma virtude sobrenatural que
opera na ordem do conhecimento, porquanto, por ela, aderimos à verdade
por Deus revelada, movidos pela autoridade de Deus, e não pela
evidência. Declarou mais o Concílio que, como a fé é um obséquio
racional, ao lado da Graça interna, providenciou Deus os sinais
externos, acomodados à inteligência humana, para que o homem soubesse
que realmente Deus revelou tais e tais verdades. Por fim, condenou
aqueles que afirmam que a fé é uma adesão cega, ou baseada só na
experiência interna.
Qualquer conversão, pois, qualquer adesão à Igreja, não se faz sem um conhecimento intelectual que aceita uma verdade.
18. Teriam Cursilhos levado na devida conta a definição do I Concílio do Vaticano? Não nos parece.
En
efecto, más de lo que sobre el papel del conocimiento intelectual de la
Revelación, insisten ellos sobre la “vivencia”, o sea, la experiencia,
el contacto vivo, la atracción entusiasta, como medio de convertir las
almas a Jesucristo. É o que se pode ver em documento oficial de
Cursilhos de Cristandade, como é o opúsculo "Temas do II Encontro
Nacional de Secretariados Diocesanos de Cursilhos de Cristandade do
Brasil" (que designaremos pela sigla "II EB"), editado pelo Secretariado
Nacional do Brasil. Tal opúsculo declara que a conversão só se faz
mediante aquela vivência. Em outras palavras. Primeiro é o homem
conquistado pelo entusiasmo que lhe causa a figura de Jesus Cristo.
Nisto está a conversão. Depois, e somente depois, na fase catequética,
passa o convertido a estudar a Revelação do Divino Salvador. E esta
ordem é tão necessária que, quando "se queimam as etapas", topamos com
homens catequizados, porém sem conversão interior.
Semejante
manera de entender la conversión, por lo menos minimaliza el papel de la
inteligencia, olvidando la enseñanza del Concilio Vaticano I, citado
arriba. Pela sua importância, vamos transcrever aqui a página 5 do "II
EB". Constitui ela como que o pórtico do opúsculo, quase a dizer ao
leitor o que são Cursilhos de Cristandade:
"SOBRE A FÉ. O Evangelho nos mostra o cego de Jericó a pedir: "que eu veja, Senhor". E a fé é uma visão nova da vida.
Exigência fundamental é a fé; sem ela o sobrenatural é impossível; a fé é a porta, o início...
Nem
todos sabem o que é a fé, porque muitos a colocam simplesmente no
aspecto de "visão intelectual das coisas de Deus". Ela é mais do que
isso: é adesão a Alguém, a Cristo.
Quanto ao Movimento que ora
nos reúne, devemos dizer que na fé há duas etapas: a fé de conversão
(Quérigma) e a fé de conhecimento (Catequese).
O quérigma anuncia
um acontecimento, é vivencial; mostra-nos o Cristo, aproxima-O de nós e
isto nos encanta e... nos converte a Ele.
Tanto o quérigma como o
Cursilho procuram gerar a FÉ PRIMEIRA, A CONVERSÃO. A CATEQUESE É UMA
SEGUNDA ETAPA, que desenvolve as implicações do fundamental cristão.
Na
prática, acontece que muitas e muitas vezes, há muita gente
"catequizada" (ou que se julga tal) e que não foi ainda convertida.
Exemplo: o moço rico do evangelho. De outro lado há os convertidos sem
catequização e... como Dimas "roubaram o céu...
Ao quérigma
sucederá a catequese; e no seu devido tempo virá a "homilética", ou
seja: o ensino normal dentro da comunidade (Carlos Mantica, p. 3).
Na
prática, QUEIMAM-SE ETAPAS E ASSIM TEMOS HOMENS CATEQUIZADOS (e
catequizadores) SEM A CONVERSÃO INTERIOR, de plena adesão a Cristo.
Devemos
concluir, portanto, que a função do Cursilho é essencialmente
querigmática e não catequética e que não se pode exigir do Movimento de
Cursilhos aquilo que é além de sua função específica. Principalmente
nós, padres, reclamamos o que o Movimento não é chamado a dar e lhe
atribuímos falhas que não são do Movimento.
É por isso que nos rolhos, mais que doutrina, damos testemunhos, vivência" (o destaque em versalete é nosso).
A
página acima reassume idéias do opúsculo de Carlos Mantica, dirigente
de Cursilhos de Cristandade da Nicarágua, "Inserção do Movimento de
Cursilhos na Pastoral de Conjunto e Conversão e Cursilhos" (edição do
Secretariado Nacional de Cursilhos de Cristandade do Brasil, 1970). É
lícito, pois, que a esclareçamos com uma frase desse autor, tomada ao
citado opúsculo, onde se acha à p. 2: "O Kérigma é uma EXPERIÊNCIA
AFETIVA, "SENTE-SE" que se anuncia a verdade, APESAR DE QUE NÃO SAIBAMOS
EXPLICAR O SEU PORQUÊ. A catequese é intelectiva e explica essa
verdade" (destaque nosso) (18).
Quisemos, amados filhos, citar na
íntegra esta página do "II EB" — na qual sublinhamos os passos mais
significativos da concepção que Cursilhos têm de fé e conversão — pelo
grande auxílio que presta na avaliação da mentalidade que o Movimento
cursilhista cria nos que lhe são fiéis. Por ela se vê que Cursilhos
procuram a conversão, mediante uma via predominantemente alógica, que
chamam de "vivência".
Exaltación de la sensibilidad
19. Nossa
apreensão aumenta, amados filhos, pelo fato de que a minimalização do
papel da inteligência, na conversão do indivíduo, vem acompanhada de
muita ênfase dada ao fator emotivo (19).
Digamos, desde logo, que
esta não foi a pedagogia de Nosso Senhor Jesus Cristo, como no-la
transmitiu a Tradição da Igreja e consta do Magistério eclesiástico. Com
efeito, a Igreja temeu sempre pelas conversões sem base sólida em
princípios firmemente aceitos pela inteligência, que pudessem dar
firmeza à vontade no combate às paixões desordenadas e na seqüela do
Divino Mestre.
Jerarquía de las facultades humanas
20. Não quer isso dizer que a Igreja Se contentou ou Se contenta com a mera aceitação intelectual das verdades reveladas. Não.
Ela
quer a fé, que opera pela caridade, como diz São Paulo (Gál. 5, 6). Em
outros termos: Ela quer que o fiel viva de acordo com a sua fé, tenha,
nesse sentido, uma fé viva. O fundamento, porém, dessa fé, na qual se
firma a adesão viva a Jesus Cristo, é a aceitação, pela inteligência, da
Revelação, e, em primeiro lugar, do fato de que Jesus Cristo é deveras o
Filho de Deus feito homem, cujos ensinamentos devem ser acatados, como
condição preliminar para agradar a Deus e salvar a alma, porquanto sem
esta fé "é impossível agradar a Deus" (Heb. 11, 6; Vaticano I, s. 3, c.
3).
21. Também não quer dizer que a Igreja despreze a parte
sensível da natureza humana. Ela não a despreza. Pelo contrário, ama-a
com o amor com que Jesus Cristo a amou ao assumir nossa natureza. Quer,
porém, que ela conserve seu lugar na hierarquia dos elementos que
compõem a natureza humana, isto é, a serviço das convicções firmadas nas
verdades reveladas. Poderá ela assim auxiliar o apostolado; do
contrário, tomando a frente, suas construções comparam-se às casas
edificadas sobre areia, das quais diz a Escritura que não resistem aos
vendavais. Imaginemos um fiel entusiasmado com sua Graça, que de repente
é submetido a uma prova de aridez espiritual. Se toda a sua formação
teve por base a alegria e o entusiasmo, resistirá ele à prova?
22.
Diz D. Hervás, no "Manual de Dirigentes", que a finalidade de Cursilhos
é selecionar os melhores em cada ambiente, para que "uma vez bem
cultivados, elevem e transformem a massa, sendo fermento de Cristandade"
(p. 27). Que fruto podemos esperar de uma elite capaz de causar grandes
emoções, mas desprovida dos meios que poderiam dar um valor positivo a
essas emoções?
Cursillos y lavado de cerebro
23. A
importância que Cursilhos dão às emoções e impressões levou muitos a
aproximarem o tríduo cursilhista de uma lavagem de cérebro (cf. D. João
Hervás, "Interrogantes y Problemas sobre Cursillos de Cristiandad",
Euramerica, Madrid, 1968, 3.a edição, p. 361; "Alavanca", órgão do
Secretariado Nacional de Cursilhos de Cristandade do Brasil, n.° 65, p.
5; n.° 66, p. 9; Alberto Bonet, artigo "Formación apostólica — Un
cursilio de cristiandad", em "Ecclesia", Madrid, 25 de setembro de 1954;
Pe. Paulo Cañelles, em "O Estado de São Paulo", 27 de maio de 1972;
John H. DeTar e Thomas M. Manion, "Cursillo - To Deceive the Elect!",
Athanasius Press, Reno, Nevada, 1969; Garry Wills, "Brainwashing... for
Gods sake?", em "The National Catholic Reporter", 17 de fevereiro de
1965).
Que algum fundamento tenha semelhante acusação, pode-se
deduzir de uma observação sobre o "Manual de Dirigentes", que lemos no
artigo "A história do Movimento de Cursilhos no Brasil", publicado em
"Alavanca" (n.° 62, dezembro de 1971, pp. 10-14). Descrevendo certos
"erros iniciais" do Movimento no Brasil, fundado em 1962, a revista
escreve:
"Quanto ao Cursilho propriamente dito (três dias),
ocorriam os erros comuns de absolutização do Manual de Dirigentes,
tolhendo-se as iniciativas, prendendo-se mais à letra do que ao espírito
de cada peça do Movimento [...].
Porém, o "impacto" premeditado,
a coação e o uso de técnicas que abertamente atingiam ou condicionavam a
liberdade do homem, conflitavam com a nossa visão de uma liberdade
responsável" (p. 11).
Duas páginas adiante, o mesmo artigo de
"Alavanca" sobre a história de Cursilhos no Brasil, referindo-se agora
ao ano de 1968, diz: "Já combatíamos os impactos emocionais artificiais"
(p. 13).
Sem afirmar que Cursilhos adotem o método de lavagem de
cérebro empregado pelo comunismo soviético ou chinês, ou, outrora, pelo
nazismo, observamos contudo que D. Hervás, em "Interrogantes y
Problemas sobre Cursillos de Cristiandad", ao procurar responder a essa
objeção, no cap. 28, de fato nada contesta. Introduz o seu arrazoado,
dizendo que não sabe "exatamente em que consiste uma lavagem de
cérebro", e a seguir afirma que "dizer que os Cursilhos de Cristandade
são uma lavagem de cérebro é pronunciar com seriedade uma verdadeira
tolice" (p. 366). — Não cremos que semelhante maneira de enfrentar o
problema possa convencer a alguém.
Logo após, D. Hervás observa
que "os que tomam parte em um Cursilho não vão forçados, mas de modo
inteiramente voluntário, e voluntariamente permanecem nele"; que
evidentemente "não há nada de drogas"; que a alimentação é boa; que "não
há coação moral alguma a violentar a personalidade dos assistentes";
que são excluídas as pessoas influenciáveis e de personalidade débil;
que há, isto sim, um ambiente favorável e adequado, destinado, como os
Exercícios Espirituais de Santo Inácio, não a diminuir mas a aumentar e
robustecer as personalidades (p. 367).
Tais ponderações — algumas
das quais exigiriam provas — mostram, no máximo, que Cursilhos não
empregam métodos violentos de lavagem cerebral. Mas elas nem sequer
consideram a possibilidade de uma lavagem cerebral feita através de
métodos mais subtis, suaves e disfarçados. Ora, é exatamente disto que
Cursilhos têm sido acusados. Gostaríamos de ver D. Hervás demonstrar que
Cursilhos de fato não empregam uma via alógica para mudar as convicções
dos cursilhistas. É este o problema que está em causa. "Lavagem de
cérebro" é uma noção muito ampla. Se por lavagem de cérebro se entende
um processo de mudar as convicções de uma pessoa predominantemente pela
manipulação de uma sensibilidade superexcitada, não se pode negar que há
um elemento fundamental muito importante, comum à lavagem de cérebro e
ao método de Cursilhos.
El Pos-cursillo
24. Os autores e
documentos cursilhistas dão grande atenção ao Pós-cursilho, o qual visa
assegurar a perseverança daqueles que fizeram o tríduo (20).
Consideram-no a parte ou etapa mais importante do Movimento.
Assim,
o livro "Ideario", publicado pelo Secretariado Nacional da Espanha
(revisto por Francisco Suárez e Clemente Sánchez, Euramerica, Madrid,
1972), afirma que Cursilhos se centram "primeira e principalmente [...]
em abrir largas possibilidades de amizade com Cristo, ou, dito de outro
modo, em realizar o Pós-cursilho" (p. 139). De modo que "o Pós-cursilho
deve ser sempre, e cada vez mais, o centro de atenção e o núcleo de
interesse de toda a obra de Cursilhos" (id., p. 143). D. Hervás diz
também que é precisamente com o Pós-cursilho que "começa a parte
principal" ("Los Cursillos de Cristiandad, instrumento de renovación
cristiana", p. 35).
Nesta Pastoral, entretanto, dispensamo-Nos de
apresentar um estudo mais circunstanciado das estruturas e métodos do
Pós-cursilho, e isso porque ele não tem uma orientação doutrinária
própria, distinta da do Movimento em geral.
Para dar uma rápida
noção da orientação do Pós-cursilho, citamos a seguir alguns textos que
ressaltam o papel nele desempenhado pela "vivencia" — em relação à qual,
como já dissemos, temos sérias reservas.
a) "AFIRMAMOS O CARÁTER
VIVENCIAL DAS ULTREYAS, sem que isto signifique subestimar seu valor
formativo" (21) (conclusão do I Encontro Latino-Americano de Delegados.
Nacionais do Movimento, Bogotá, 1968, citada por Clemente Sánchez e
Francisco Suárez, "Cursillos de Cristiandad Abiertos al Futuro", edição
do Secretariado Nacional da Espanha, Euramerica, Madrid, 1971, p. 452 — o
destaque em versalete nosso).
b) O Encontro de Bogotá confirmou
"a doutrina tradicional, ratificada em anteriores convivências (22).
Parte de uma afirmação fundamental, que é a que se contém nesta
conclusão: a Ultreya deve conservar seu caráter vivencial. REALMENTE,
UMA LONGA EXPERIÊNCIA ENSINA QUE A ULTREYA DE TIPO VIVENCIAL É A QUE
MAIS SE ACOMODA À MANEIRA DE SER DO HOMEM MODERNO" (Clemente Sánchez e
Francisco Suárez, "Cursillos...", pp. 521-522 destaque nosso).
c) "Compartilhar em escala de Igreja as vivências cristãs [é o] fim próprio da Ultreya [...]". (id., p. 660).
d)
"[...] um verdadeiro Pós-cursilho exige a presença de diferentes
pessoas: É SEMPRE UMA VIVÊNCIA COMUNITÁRIA" ("Ideario", revisto por
Francisco Suárez e Clemente Sánchez, P. 147 — destaque nosso).
e)
"Na Reunião de Grupo deve encontrar o cursilhista a vivência da
comunhão cristã a que foi chamado" (acordo do II Encontro
Latino-Americano de Cursilhos de Cristandade, Tlaxcala, 1970, citado por
C. Sánchez e F. Suárez em "Cursillos .", p. 635).
f) [...]
cremos que a dinâmica comunitária da Reunião de Grupo e da Ultreya
(ressalvadas as diferenças) permite a possível participação de cristãos
que não tenham feito um cursilho, MAS QUE COMPARTILHAM A VIVÊNCIA DO
CRISTIANISMO e seu compromisso sobre a base da amizade" (declaração do
II Encontro Mundial de Cursilhos de Cristandade, Tlaxcala, 1970, citada
por C. Sánchez e F. Suárez em "Cursillos...", p. 551 — destaque nosso).
g)
"Os elementos do Pós-cursilho devem levar a: — RENOVAR A VIVÊNCIA E A
CONVIVÊNCIA DO FUNDAMENTAL CRISTÃO [...]" ("Documento de Itaici" em
"Alavanca", n.° 67, p. 30 — destaque nosso).
Parte II: LOS CURSILLOS EN EL CAMPO MORAL
Extenuação dos efeitos do pecado original
25.
Talvez a perspectiva excessivamente otimista em que veem o mundo, tenha
levado Cursilhos a uma minimalização do pecado. É o que se conclui do
exame do rolho sobre o assunto, que se intitula "Obstáculos à vida da
Graça" (23). Assim, logo no começo, estabelece o rolho a finalidade da
conferência: "É preciso incutir no ânimo dos Cursilhistas, SEM
PESSIMISMO [destaque nosso], a realidade das dificuldades que poderão
encontrar, para que as conheçam, dando-lhes, além disso, os meios
práticos de superá-las" (p. 3). — Como se pode notar, não se trata de
salientar o pecado para odiá-lo; mas, apenas, de incutir no ânimo dos
cursilhistas a noção das eventuais (o texto diz "poderão encontrar")
"dificuldades", ou seja, das tentações que possivelmente terão que
vencer.
Se perguntarmos: quais são essas dificuldades?
verificaremos que la respuesta dada por el rollo causa la misma
impresión, esto es, de que hay temor de presentar el pecado en su
hediondez. O texto recomenda, de fato, que "não se deve descer aos
problemas concretos". — Mas, perguntamos, como orientar católicos, no
mundo de hoje, sem lhes falar dos problemas concretos com que terão eles
que se haver na vida? — No entanto, o texto cala precisamente aquelas
ocasiões nas quais habitualmente é o homem solicitado a pecar. Pois
deseja que não se fale em "diversiones, bailes, relaciones, matrimonio,
etc.". Cabe decir: ¿qué sobra? Hallamos, por tanto, a los Cursillos muy
deficientes en este punto, que es fundamental para formar en el fiel una
mentalidad verdaderamente católica.
O mesmo rolho tenta
desculpar-se, dizendo que "não se deve pretender dar um curso de
ascética cristã, que os ouvintes não estão em condições de assimilar"
(p. 4).
Não nos parece válida a escusa. Se ela justifica a
atitude de Cursilhos, de não se alongarem numa exposição que só se
compreenderia num curso de ascética, absolutamente não os absolve. Com
efeito, a desculpa pressupõe que numa formação católica inicial não se
deve, por sistema, destacar energicamente, a malícia do pecado, a qual o
torna, sob todos os pontos de vista, detestável. Tal maneira de
conceber o Cristianismo é contrária à Tradição e à própria pregação do
Divino Mestre, que habitualmente procurava a conversão dos pecadores
acenando-lhes com os castigos eternos, consequência natural do pecado.
Cursilhos parecem esquecer que no ódio ao pecado está o amor de Deus.
A
atitude de Cursilhos é tanto menos compreensível, quanto a intenção
explícita que lhes dão seus promotores, é selecionar uma elite que, bem
formada, levede a massa dos fiéis (cf. D. Hervás, "Manual de
Dirigentes", p. 27). Não vemos como se possa formar bem, se já no começo
se evita de tratar de um ponto básico de qualquer mentalidade católica.
Enfim,
uma última observação quanto a este ponto. No rolho sobre a Graça
habitual, recomenda-se que não se entre "na parte negativa, ou seja, o
pecado, que tem seu lugar mais adiante" (p. 5). E agora, ao tratar do
pecado, declara-se que o objetivo é "dar uma visão da Graça [...] que
seja realmente uma visão da Graça" (p. 3). Em tudo se nota um temor de
mostrar o pecado como ele é na realidade. Semelhante temor, embora não
negue taxativamente a natureza do pecado, extenua-lhe a malícia, com
sério prejuízo para as almas (24).
Cursilhos e mortificação voluntária
26.
A Redenção de Jesus Cristo libertou-nos do pecado, destruiu o império
do demônio, porém não nos restituiu o estado de inocência anterior à
queda de nossos primeiros pais. De maneira que, para conservar a Graça e
a amizade com Deus, ainda temos que lutar contra os assomos da
concupiscência, a lei dos membros, na expressão de São Paulo, que se
rebela contra a lei do Espírito, a Lei de Deus. Nesta luta, somos
robustecidos pela mortificação, não somente por aquela que é imposta
pelos deveres de estado, mas também por aquela que é assumida,
livremente, com a finalidade especial de fortificar a vontade contra os
ímpetos malsãos de nossa parte inferior. Em qualquer curso de
espiritualidade, de orientação católica, há o capítulo da mortificação,
no qual se fala da penitência que nós nos impomos a nós mesmos com
vistas a dominar nossas paixões.
27) Cursilhos falam também de
mortificação. Primeiro, para censurar os penitentes medievais, como já
vimos. Depois, para reduzir a mortificação ao cumprimento dos próprios
deveres (rolho "Obstáculos à vida da Graça", pp. 26-27). O exemplo de
São Paulo, "castigo o meu corpo [...] não venha eu mesmo a ser
reprovado" (1 Cor. 9, 27), é alheio a esse texto.
A orientação do
rolho citado aparece em outras publicações cursilhistas. Assim,
"Alavanca" estigmatiza como fruto do maniqueísmo, atitudes altamente
edificantes da ascética tradicional. O Evangelho retamente entendido —
assim "Alavanca" —"altera profundamente certas perspectivas maniquéias
da religião do sofrimento, de pequenas penitências, de pequenas
mortificações [...]. O Evangelho não é a cultura da dor ou sofrimento. A
palavra de Deus proclama a aceitação dos sofrimentos irremediáveis.
Mas, somente quando não há outra solução [...]. Penitência não significa
procurar o sofrimento ou fazer mortificações" (n.° 55, abril de 1971,
p. 12).
Notemos que na mesma revista, n.° 58, há uma nota em, que
se fala da necessidade pessoal do sacrifício para "maior crescimento
espiritual e mais enérgico domínio das paixões" (p. 18). — Compreendeis
no entanto, amados filhos, que referências como essa (25) não são
suficientes para tranquilizar o espírito em face de uma doutrina
ensinada ex professo, como a do artigo citado. Aliás, contradições em
que se mesclam ensinamentos ortodoxos e doutrinas espúrias prejudicam
substancialmente a formação.
28) Está na mesma direção a alegria
aberta, despreocupada, que se fomenta em Cursilhos (26). É o que
transparece da norma dada por D. Hervás, no "Manual de Dirigentes", para
a manhã do primeiro dia, em que se encerra o pequeno retiro espiritual.
Assim, depois da noite e manhã consagradas à reflexão sobre a vida
pecaminosa e sobre a misericórdia de Deus e a necessidade do perdão, já
na mesma manhã em que termina o retiro, cria-se um ambiente pouco
propício ao estudo e à metodização dos meios necessários para corrigir
os maus hábitos contraídos anteriormente. Instala-se, logo após a Missa,
um clima de alegria, de gozo, de camaradagem, que vai até a libertação
da tendência inferior do homem, nas piadas equívocas, quando não nos
ditos abertamente obscenos. O mesmo ambiente de brincadeiras deverá
estabelecer-se em outras ocasiões ao longo dos três dias, sobretudo às
refeições.
29) É este, amados filhos, um ponto sombrio de
Cursilhos. No Capítulo dos chistes, na manhã do primeiro dia, adverte o
"Manual" que "os dirigentes. devem estar dispostos a intervir, para
desviar ou cortar qualquer inconveniência que surgir" (p. 256).
Só
esta recomendação basta para indicar o ambiente pouco sério após as
meditações relativas à emenda de vida. Testemunhos de cursilhistas
mostram como a vigilância dos dirigentes, nesta matéria, tem sido pouco
eficiente. A mesma conclusão nos leva o aviso publicado em "De Colores",
revista oficial do Secretariado de Cursilhos de Belo Horizonte. No
número de março de 1970, à página 4, a revista, sob o título "Palavrões,
não!", cita circular do Secretariado Nacional de Cursilhos do Brasil,
que recomenda se "insista" junto à Escola de Dirigentes para que sejam
abolidos "definitivamente" os "palavrões", os quais, diz a circular,
"nunca fizeram parte do método de Cursilho" (27). - Observemos que se
censuram apenas os "palavrões". Nada se diz das piadas ambíguas,
picantes, maliciosas, equívocas, enfim das mil maneiras que tem a
sensualidade de se infiltrar e tomar conta das almas. Notemos que há
livros apontados pela moral católica como nocivos, precisamente pela
maneira subtil com que destilam a sensualidade nos corações. O
Secretariado Nacional de Cursilhos censura os palavrões. Deixa, pois,
perceber que até lá se tem chegado em tríduos cursilhistas. E, pela
mesma razão, têm abundado piadas carregadamente sensuais, sem, contudo, o
emprego de termos de baixo calão. Destas piadas, nada diz a revista. A
nota, no entanto, mais os testemunhos de cursilhistas, são suficientes
para nos indicar o estilo de alegria de Cursilhos, que nos parece
absolutamente contra-indicado e pernicioso num movimento católico.
Porquanto, estamos bem longe da recomendação que fazia São Paulo aos
fiéis de Éfeso, para se portarem como verdadeiros cristãos: "nem se
nomeie entre vós a fornicação, ou qualquer impureza, como convém a
santos; nem palavras torpes, nem loucas, nem chocarrices que são cousas
inconvenientes" (5, 3-4).
Igualitarismo na Igreja
30) É,
outrossim, amados filhos, motivo de apreensão a concepção que Cursilhos
têm da Igreja, "como povo de Deus", na expressão do Vaticano II.
É
o rolho "Os leigos na igreja", do Secretariado Nacional da Espanha, que
expõe mais detalhadamente o assunto. Nele se encontram expressões
inteiramente ortodoxas, que pressionam a obrigação de se dedicar ao
apostolado, que incumbe a todo fiel, de modo particular no ambiente que
frequenta. Ao lado dessas expressões, entretanto, há outras que parecem
desconhecer o ensinamento tradicional, reassumido por São Pio X na
Encíclica "Vehementer", de 11 de fevereiro de 1906. Diz o Santo
Pontífice que "a Escritura nos ensina e a tradição dos Padres no-lo
confirma, que a Igreja é o Corpo místico de Cristo, Corpo regido por
PASTORES e DOUTORES (Ef. 4, 11 ss.) [...]. Daí resulta que essa Igreja
é, por essência, uma sociedade DESIGUAL, que abrange duas categorias de
pessoas, os Pastores e o rebanho [...], de maneira que no corpo pastoral
residem o direito ,e a autoridade necessários para promover e dirigir
todos os membros ao fim da sociedade" (AAS, 39, pp. 8-9).
31)
Cursilhos, ao exporem o papel dos leigos na Igreja, falam diversamente. O
rolho sobre os leigos, às páginas 40 ss., tem uma reminiscência da
doutrina tradicional. Em outros tópicos deste rolho, porém, e em outros
documentos cursilhistas, há uma tendência, sempre mais acentuada, a
conceber a Igreja como um todo cujos membros se distinguem por funções e
não propriamente por dignidade. De onde, uma inclinação a igualar, em
dignidade, todos os membros da Igreja. Assim, ao fixar as obrigações dos
Sacerdotes e dos leigos, a expressão é tal que evita salientar o estado
superior que na Igreja pertence ao Clero.
Essa é a impressão que
causam vários textos do rolho "Os leigos na Igreja". Assim, à página 6
concede-se aos leigos a missão, de si sacerdotal, de dar vida,
esperança, amor, verdade e espírito ao mundo. À página 17 salienta-se
que todos, Sacerdotes e leigos, são igreja, sendo que a estes últimos
corresponde, "por especial desígnio de Deus, dar a vida espiritual a
este mundo, infundir-lhe alma, dar-lhe fé [...] e o espírito de Cristo".
À página 26 insiste-se em que o papel do leigo não é "puramente
subalterno" com relação ao do Clero, porquanto "ambos devem procurar e
querer a mesma cousa: dar glória ao Padre, salvando os irmãos, cada um,
porém, deve buscá-lo de seu lado", sendo um "varão perfeito dentro de
sua profissão". À página 35 se aplica promiscuamente, a Sacerdotes y
laicos, el otorgamiento de la misión apostólica hecha por Jesucristo y
que consta en el texto de San Mateo: "id, pues, y haced discípulos" (28,
19), quando a Tradição o entende aplicado aos Apóstolos e seus
sucessores. Todas estas expressões são, talvez, passíveis de uma
interpretação ortodoxa. Não deixam, porém, de indicar uma tendência a
conceber a Igreja num sentido horizontal.
Semelhante tendência é
mais saliente em trabalhos apresentados no II Encontro Mundial de
Delegados Nacionais de Cursilhos, realizado em Tlaxcala, México, em maio
de 1970, e que o Secretariado Nacional do Brasil traduziu e divulgou
para que "os responsáveis pelo Movimento [...] possam encontrar aqui
palavras e ideias que os façam crescer no entusiasmo e na entrega pelo
Movimento" (capa interna). Pois no caderno referente aos trabalhos do
terceiro dia encontramos, na relação do Peru, expressões como estas, que
denunciam uma orientação niveladora na concepção da Igreja: "A
Hierarquia não condena Os fiéis à condição de inferioridade" (p. 12),
porquanto, na ação salvífica, "toda a Igreja, como Povo de Deus, fica
comprometida como um todo orgânico" (p. 14), realizando pois "obra
verdadeiramente comum, como comum é a missão da Igreja" ("Encontro
Mundial de Delegados Nacionais de Cursilhos de Cristandade, Temas do 3.°
Dia", edição do Secretariado Nacional de Cursilhos de Cristandade do
Brasil, São Paulo, 1970, p. 15) (28).
32) Na ordem prática,
Cursilhos levam o igualitarismo mais longe. Assim, logo na manhã do
primeiro dia, dá o "Manual de Dirigentes" como norma que à mesa não haja
presidência, e todos, inclusive os Padres, se mesclem indistintamente
(p. 222) (29). Fomenta-se, além disso, um ambiente de camaradagem, por
meio de chistes, anedotas, etc., sendo que se recomenda aos Sacerdotes
que na medida do possível animem a camaradagem, participando da sessão
de piadas (p. 285). No mesmo sentido, concorre para acentuar a tendência
niveladora, confiar tarefas modestas, como as de cozinha, limpeza,
etc., a pessoas categorizadas na sociedade, por exemplo, oficiais do
Exército, médicos, engenheiros, etc., não excluídos os Sacerdotes (30).
Jesus Cristo, nosso "Chefão"
33) Mas nada inculca tanto a ideia de igualdade total, como o modo de cursilhistas se dirigirem a Nosso Senhor Jesus Cristo.
Sendo
o Divino Salvador nosso amigo e nosso irmão, pela Graça que nos eleva à
dignidade de filhos adotivos de Deus, e tendo Ele mostrado seu amor
para conosco, especialmente na instituição da Santíssima Eucaristia,
devemos externar-Lhe os sentimentos condizentes com as novas relações
que sua infinita misericórdia criou entre nós e Ele. Nada disso exige
que esqueçamos o respeito e suma veneração devidos à sua Pessoa
adorável. Julgam, entretanto, Cursilhos que a expressão daqueles
sentimentos pede se dispense a Nosso Senhor o tratamento dado
habitualmente a um capataz de uma empresa qualquer. Assim, em Cursilhos
do Brasil, aprende-se a chamar a Jesus Cristo de "Chefão": "As visitas
ao Santíssimo, sendo vivenciais e improvisadas, ajudam à comunhão entre
os cursilhistas, unem os corações, fomentam a autêntica amizade. E tudo
isso baseado numa fonte, numa causa: o Cristo, nosso "Chefão", nosso
irmão mais velho, nosso grande amigo e companheiro" ("Temas do II
Encontro Nacional de Secretariados Diocesanos de Cursilhos de
Cristandade do Brasil", p. 55).
O termo "Chefão" não encerra
propriamente amor e confiança. Diz apenas uma camaradagem de pessoas que
se sentem no mesmo nível, graças, quiçá, a alguma parceria em manobras
desonestas (31).
34) Muito diversamente apresentam Jesus Cristo
as Sagradas Escrituras. No Apocalipse, a glória e a realeza do Verbo de
Deus, que morreu por nós, se manifesta tão excelsa que, ao vê-la, São
João caiu como morto (1, 13 e 17). Não menor é a majestade do Cordeiro
descrita no cap. 5, diante da qual se prostram os anciãos e O adoram.
Sublinhemos,
outrossim, a preocupação do mesmo Divino Mestre no sentido de que seus
discípulos tivessem ideia exata nesta matéria. Na última Ceia,
precisamente quando Se dignou, para nosso exemplo, lavar os pés de seus
Apóstolos, sublinhou Jesus Cristo o tratamento correto que Lhe é devido.
Após o Lava-pés, para evitar uma conclusão errônea, que seus discípulos
poderiam tirar de seu ato, disse o Salvador: "Vós Me chamais Mestre e
Senhor, e dizeis bem, porque Eu o sou" (Jo. 13, 13). E os Apóstolos não
precisaram esquecer a excelsa dignidade de seu Mestre e Senhor, para
nEle depositar toda a confiança, e para dar-Lhe mostras supremas de
amor, sacrificando a própria vida por Ele.
Que os superiores
saibam servir até em ofícios humildes, está bem. Isso não se faça,
todavia, por princípio ou em ambiente destrutivo da hierarquia que há,
na Igreja e na sociedade, por disposição divina.
Parte III: LOS CURSILLOS Y LA SUBVERSIÓN
Contra las actuales estructuras
35
Cursilhos, de si, são um movimento de caráter religioso. Pretendem ser
um instrumento de renovação cristã, especialmente depois do Concílio
Vaticano. O que não impede, talvez mesmo explique, que proponham também
normas para a renovação da sociedade civil. Com efeito, o convite lhes
vem do mesmo Concílio Vaticano II, cuja Constituição sobre "a Igreja no
mundo atual" traça orientações relativas às condições
político-econômico-sociais.
Mais. Em Cursilhos, a julgar por
publicações oficiais, mesmo exercícios religiosos se fazem dentro da
perspectiva dos deveres sociais. Por exemplo. A "Via-Sacra" editada pelo
Secretariado Nacional do Brasil (São Paulo, 1969), solicita a compaixão
dos fiéis, menos para os padecimentos de Jesus Cristo, do que para as
vítimas dos problemas contemporâneos, reais ou imaginárias. Nela, Jesus
Se identifica com o mal remunerado, com o desempregado, com o
tuberculoso, com o que dorme ao relento, com o que está na cadeia, com o
explorado... e em geral com os homens, pois nela Jesus convida o
cursilhista a não olhar para trás ou para cima a fim de O amar, mas a
olhar para a frente (pp. 31-32). Um exemplo mais frisante temos nas
considerações da primeira estação (pp. 4-5):
36) "Cristo continua preso faz 20 séculos.
Há
prisões por toda Parte Há prisões que não se escondem, que têm grades
que a gente pode ver. E há prisões disfarçadas, que têm grades
invisíveis que a gente não pode pegar e sacudir de raiva. .. Há prisões
onde os carrascos torturam como verdadeiras feras humanas. E há prisões
onde os carrascos andam mascarados em homens de bem. Há prisões que se
chamam "prisão". E há prisões que recebem uma porção de nomes
arranjados; prisões que se chamam favela, cidade, fábrica, baile, casas
de perdição. Prisões chamadas regime político, sistema econômico,
sociedade anônima, contrato, lei, regulamento... Prisões que recebem
tantos outros nomes em todos os países e em todos os tempos [...].
Em
todas as prisões — visíveis ou invisíveis, em que me encontro — Cristo é
meu companheiro de cela. Se sou liberto de alguma delas, Cristo
continua lá prisioneiro.
Senhor, ajudai-nos a reconhecer
o vosso rosto desfigurado
em todas estas prisões.
Ajudai-nos a reconhecer-vos,
para que no dia
em que a totalidade dos encarcerados
for conduzida ao Supremo Tribunal da História
possamos ouvir de vossa boca:
"Vinde benditos... porque eu estava prisioneiro
em cada um destes meus irmãos
e vós estivestes comigo" (Mat. 25, 36)".
Como
vedes, amados filhos, o texto de São Mateus foi retocado. Retoque
necessário, para ajustar-se aos desígnios do autor, os quais esta
meditação deixa entrever. — Quais seriam esses desígnios? — Observemos a
quem é Jesus equiparado, e não será difícil perceber. — Jesus é aqui
indicado como símbolo do prisioneiro de um sistema político, social,
econômico. Na generalização, porém, com que engloba de modo vago todos
os que estão nas prisões, com que não especifica quais os regimes
opressores, a meditação só poderá suscitar descontentamento, ódios,
subversão.
37) O exemplo citado mostra como os deveres sociais
são concebidos, por tais publicações, de modo a acentuar uma tendência
esquerdizante. E, de fato, na ordem econômico-social reaparece a
orientação igualitária com que Cursilhos encaram as estruturas
eclesiásticas.
Com efeito, em diversas publicações oficiais de
seus Secretariados, manifestam-se Cursilhos por uma mudança fundamental
das atuais estruturas sociais, que sacrificariam os direitos essenciais
do homem (cf. trabalho da Colômbia no II Encontro Mundial de Cursilhos,
em "Encontro Mundial..., Tmas do 3.° Dia", edição do Secretariado
Nacional do Brasil, p. 34). Uma insistência sobre as igualdades
essenciais dos homens, sem salientar as legítimas e importantíssimas
desigualdades acidentais — que, no entanto, dão origem à sociedade —
encaminha o cursilhista para uma concepção igualitária da sociedade, que
chega a censurar a desigualdade, porque um tem mais do que o outro (cf.
Eduardo Cierco, "El cristiano y la pobreza", em "Trípode", órgão do
Secretariado Nacional de Cursilhos da Venezuela, n.° 70, maio de 1970,
p. 19).
Como já vimos, têm para nós especial interesse as
intervenções no II Encontro Mundial de Delegados de Cursilhos (México,
1970), pois foram elas traduzidas e divulgadas no Brasil, para
enriquecimento cultural dos responsáveis pelo Movimento. Entre as
intervenções, a do representante da Colômbia reproduz os jargões de
todos os que se revoltam contra as estruturas atuais, sem definir com
clareza qual a estrutura que almejam para substituí-las (cf. "Encontro
Mundial..., Temas do 3.° Dia", pp. 34 ss.) (32).
Na intervenção
indicada, surgem as acusações comuns entre os subversivos, contra as
atuais estruturas: são "paternalistas", "oligárquicas", "impedem a
realização das pessoas e dos povos", "destroçam a igualdade essencial
entre os homens e a plena realização de seus direitos" (p. 34). O
relator não declara que se refere às atuais estruturas, mas percebe-se
claramente que são elas que visa, sobretudo quando lhes atribui todos os
males que afligem a humanidade. De fato, se não se reporta às
estruturas atuais, quais seriam as estruturas cujos frutos são "a
miséria, a fome, o ódio, a rebeldia, as guerras, a ignorância, o
infantilismo, o mutismo e a irresponsabilidade, e a marginalização de
homens e povos na cooperação livre da marcha da história, impedindo-lhes
todo o acesso aos círculos nacionais ou mundiais, onde se decidem os
destinos do homem e do mundo" (p. 35)? — Não julgamos o relator tão
néscio que catalogue os defeitos e contra eles se insurja, quando está
certo de que não existem.
Por una subversión total
38. Aliás,
publicações oficiais de Cursilhos não fazem mistério do fim
político-social que visam: a subversão total das atuais estruturas da
América Latina. "Trípode", que já citamos, e é uma das mais importantes
revistas de Cursilhos no continente, à página 2 de seu número de julho
de 1971, encabeça uma reportagem com o título: "Mudanças estruturais na
América Latina devem ser rápidas, urgentes, TOTAIS" (o destaque em
versalete é nosso). A frase é do Pe. Edgard Beltrán, Secretário
executivo do Departamento de Pastoral de Conjunto do Conselho Episcopal
Latino-Americano. "Trípode", fazendo dela o título do artigo encampa-a
totalmente. Na página seguinte do mesmo número, outro título assume o
mesmo significado: "O povo de Deus deve unir-se com os que lutam por uma
ordem social mais justa".
Compreende-se que tais publicações se
mostrem favoráveis aos Padres contestatários "pela muita verdade que
podem ter em suas impostações" ("Trípode", n.° 83, julho de 1971,
reportagem citada, p. 2), uma vez que há um paralelismo entre as
reivindicações contra as estruturas eclesiásticas e as civis (33).
Los Cursillos y "Le Sillon"
39. Por que há em Cursilhos tal oposição às atuais estruturas econômico-sociais?
Ao
que parece, porque se lhes afigura injusta a estratificação da
sociedade em classes. Dizemo-lo porque a razão invocada, no II Encontro
Mundial de Delegados Nacionais de Cursilhos, contra o paternalismo, foi
que este impede "a realização das pessoas e dos povos" ("Encontro
Mundial..., Temas do 3.° Dia", p. 34). Em outras palavras. As estruturas
em que haja superiores, ainda que sejam segundo o modelo ideal da
autoridade, que é a paterna, devem ser reprovadas. Vale dizer que o
homem só pode realizar-se onde não haja superior, onde não deva
obedecer, onde não haja diretrizes que venham de cima, porquanto em tais
estruturas ele se sente diminuído, uma vez que não assume a
responsabilidade da decisão que lhe comunica a autoridade.
Semelhante
posição político-social não é nova. O movimento igualitário francês,
conhecido como "Le Sillon", preconizou o mesmo princípio regulador das
relações político-sociais. Mereceu por isso severa censura de São Pio X.
Diz o Pontífice que, segundo "Le Sillon", "o homem só será
verdadeiramente homem, digno desse nome, no dia ,em que adquirir uma
consciência esclarecida, forte, independente, autônoma, podendo
dispensar mestres, SÓ OBEDECENDO A SI PRÓPRIA, e capaz de assumir e
desempenhar, sem falhas, as mais graves responsabilidades" (AAS, 2, p.
620 — o destaque em versalete é nosso) (34).
Exposta a doutrina,
passa o Papa a condená-la. Diz: "O sopro da Revolução passou por aí, e
podemos concluir que as doutrinas sociais do "Sillon" são erradas, seu
espírito é perigoso e sua educação funesta" (Ib., p. 622).
Vedes,
amados filhos, pela energia com que o Papa São Pio X condena o
igualitarismo do "Sillon", que temos toda razão de recear que a análoga
doutrina de Cursilhos vos seja gravemente nociva à alma.
40.
Tanto mais que o ensinamento de São Pio X não é uma voz isolada na série
de Papas que perpetuam a sucessão de São Pedro no governo da Igreja.
São Pio X repete a doutrina de Leão XIII (cf. v. g. a Encíclica "Rerum
Novarum"), que por sua vez era o eco da Tradição revelada, como da voz
da própria razão humana. Por seu turno, Pio XII, na sua célebre Mensagem
natalina de 1944, sobre a democracia, reafirma a mesma linha
doutrinária de seus Antecessores. De fato, este Papa, de nossos tempos,
propugna uma hierarquia social mesmo nos países democráticos, pois
afirma que, "num povo digno de tal nome, todas as desigualdades não
arbitrárias, mas derivadas da natureza mesma das cousas, desigualdades
de cultura, posses, POSIÇÃO SOCIAL - sem prejuízo, bem entendido, da
justiça e da caridade mútua — não são de modo algum obstáculo à
existência e ao predomínio de um autêntico espírito de comunidade e
fraternidade" (AAS, 37, p. 14 — o destaque em versalete é nosso).
41.
Num ambiente de contestação e subversão, como o que atravessam em
nossos dias a Igreja e a sociedade civil, se torna ainda mais
necessária, amados filhos, a fidelidade à doutrina tradicional, contra
as teorias igualitárias que, sob pretexto de salvar a dignidade humana,
aliciam nosso amor próprio, nos desviam do caminho da verdadeira paz
social, e, pior ainda, da via que conduz à vida eterna.
Los Cursillos y el comunitarismo
42.
É possível que o desejo de sublinhar a união fraterna dos fiéis,
operada pelo Espírito Santo, tenha levado Cursilhos a insistir sobre a
vida comunitária. Tal ideia em Cursilhos é mesmo absorvente. No tríduo
cursilhista é obrigatória (35). É considerada peculiar ao Movimento
(36). Afirma-se até que nos cursilhos não se pode considerar uma
conversão individual, desligando-a da comunitária, pois é na comunidade e
para ela que deve o fiel viver (37).
43. Uma tal impostação, amados filhos, também Nos deixa perplexos.
É
verdade que em publicações cursilhistas encontram-se textos que
insistem na necessidade da direção espiritual individual (D. Hervás,
"Manual de Dirigentes", pp. 294 ss.), na importância da oração pessoal
(rolho "Vida em Graça", pp. 41 ss. ), etc.
No entanto, os muitos
documentos cursilhistas que sobrestimam o valor da comunidade causam-nos
perplexidade. Não há dúvida de que nos cumpre fomentar a caridade
fraterna, que une todos os fieis no Corpo Místico de Cristo e é o sinal
pelo qual somos conhecidos como discípulos do Senhor. É necessário,
todavia, salvar sempre a responsabilidade e atividade pessoal de cada
um. A vida comunitária não pode ser levada tão longe que venha,
praticamente, a absorver o fim pessoal do fiel.
Já o advertia Pio
XII, na Encíclica sobre o Corpo Místico: "Enquanto no corpo natural —
assim o Papa — o princípio da unidade junta de tal maneira as partes,
que cada uma fica sem própria subsistência, no Corpo Místico, ao
contrário, a força da mútua coesão, por mais íntima que seja, une os
membros de modo que conservam a própria personalidade. Além disso, se
considerarmos a relação entre o todo e os diversos membros em qualquer
corpo físico dotado de vida, os membros particulares destinam-se, em
última análise, unicamente ao bem do composto, ao passo que a sociedade
de homens, considerado o fim último de sua utilidade, é finalmente
ordenada ao proveito de todos os membros e de cada um deles, como
pessoas que são" (AAS, 35, pp. 221- -222).
E Nós, em Carta
Pastoral sobre os Documentos conciliares, advertimos Nossos fiéis, nesta
matéria, com as seguintes observações: "Há, em cada homem, algo de
inteiramente pessoal, inviolável, de que ,ele não tem obrigação de dar
contas aos demais homens, campos em que é livre de escolher quem melhor o
possa encaminhar nas vias da santificação. Um sistema que desconheça
essa realidade íntima da pessoa, concorre não para a formação do fiel,
mas para sua despersonalização, pela sua absorção num todo amorfo, do
qual não passa de uma peça sem finalidade autônoma. É precisamente o que
sempre intentaram fazer os totalitarismos, que sacrificam o homem ao
Estado e desconhecem a dignidade pessoal que há em cada indivíduo" ("Por
um Cristianismo Autêntico", p. 293).
Los Cursillos y la subversión comunista
44.
Vem a propósito salientar a analogia que há entre as concepções de
Cursilhos sobre as relações indivíduo-comunidade, e as que propugna o
comunismo no âmbito estatal. Naquelas, o fiel fica sujeito de tal modo à
comunidade em que vive, que não pode nem converter-se, nem progredir na
Graça, a não ser mediante a vida comum; nestas, o indivíduo é, de modo
semelhante, absorvido pelo Estado.
Chegamos, assim, a outro
motivo de Nossas apreensões : a simpatia que, em meios cursilhistas, se
nota pelo marxismo e suas teses (38). Observamos, em mais de uma
publicação cursilhista, não somente simpatia, mas adesão plena a teses
marxistas.
45. Assim, como os marxistas, dirigentes cursilhistas
julgam que a realização do homem consiste no bem da comunidade,
alcançado fundamentalmente pelo trabalho. Afirmam, com efeito, que "o
homem busca, mediante o trabalho, realizar-se comunitariamente e dominar
o mundo, para desse modo estruturar uma vida plenamente humana"
(intervenção da Colômbia no II Encontro Mundial — "Encontro Mundial...
Temas do 3.° Dia", p. 34).
Na revista "Trípode", n.° 55 (janeiro
de 1969, pp. 8-9), em artigo intitulado "En qué coinciden marxistas y
cristianos?", José María de Llanos, analisando publicação do Pe. Girardi
em "Terre Entière", aceita vários pontos de coincidência entre marxismo
e Cristianismo. Versan sobre los elementos básicos del marxismo:
- el fundamento de una nueva estructura; de una nueva humanidad, es de orden económico;
- la paz exige este nuevo orden, y pasa por la revolución;
- que podrá ser violenta, si no pudiera realizarse pacíficamente;
-
«el régimen de propiedad deberá ser transformado por una intervención
enérgica de la autoridad pública, nacional e internacional
».
No
artigo "El cristiano y la pobreza", Eduardo Cierco, em "Trípode" (n.°
70, maio de 1970, pp. 19-20), expõe noções de tendência igualmente
marxista sobre a prevalência do econômico na vida social e sobre a
negação do direito de propriedade.
¿República universal soviética?
46.
Como vedes, amados filhos, tudo isso envolve a aceitação do
materialismo histórico, da ditadura do trabalho, a negação do princípio
da propriedade privada, e a exigência da igualdade completa entre todos
os homens. São, essas, teses marxistas, explicitamente condenadas pelo
Magistério eclesiástico.
Quanto à negação da propriedade privada e
à implantação do socialismo, o referido artigo de José Maria de Llanos
declara que o novo regime deve ser imposto mesmo por uma autoridade
internacional. Estará seu autor pensando numa ditadura universal
soviético-comunista? — É o caso de perguntar.
"Já não ensinamos mais que o comunismo é mau"
47.
Expressões tão nitidamente favoráveis ao comunismo não se encontram com
frequência em publicações cursilhistas. Notemos, no entanto, amados
filhos, que tais expressões são fruto do espírito igualitário que domina
em Cursilhos, espírito de si responsável por uma tendência comum a todo
o Movimento (39).
Con buen fundamento, por tanto, llamamos
vuestra atención para el peligro comunistizante que puede difundirse a
través de los Cursillos, aun cuando estos reúnan personas adversas a los
principios y a las conclusiones marxistas.
48. Como exemplo da
tendência evolucionista no sentido comunista, poderíamos indicar o gosto
pelo novo enquanto novo, especialmente quando favorece o esquerdismo. É
o que notamos em "Alavanca", órgão do Secretariado Nacional de
Cursilhos do Brasil, que em secção de A. M. Cantatore (n.° 57, junho de
1971, p, 17), apresenta o livro de Louise Rinser, "Um Diálogo, um
Horizonte", onde se declara que seremos instrumentos dóceis do
progresso, quando "nossa consciência nos disser que o novo — POR MAIS
NOVO QUE SEJA - é o critério primeiro da cultura", e que uma dessas
novidades é: "em Política já não ensinamos mais que o comunismo é mau"
(o destaque em versalete é nosso) (40).
Semelhante orientação não
impede que tais revistas acolham artigos que expõem as posições
tradicionais na ordem econômico-social. Sem entrar na análise da razão
por que procedem assim, sublinhemos, amados filhos, que contradições
dessas desnorteiam o leitor e lhe tiram qualquer vontade de ter
princípios. Ora, sem princípios firmemente aceitos, o indivíduo com
facilidade resvala hoje para o comunismo, porque fica privado dos meios
de lhe opor resistência.
Comunistização da Igreja?
49. No
queremos pensar que los Cursillos estén al servicio del marxismo.
Preguntamos, entretanto, amados hijos: ¿a quién aprovecharía una
organización católica que, en sus publicaciones, mezclase materia
ortodoxa con otras obviamente marxistas? Não vos parece que seria essa a
melhor maneira de introduzir o marxismo entre os católicos?
50.
Vem a propósito lembrar a norma dada, pelo comunismo, para Cuba, a fim
de primeiramente minar a Igreja, e depois pô-la ao serviço do movimento
comunista. Encontra-se no folheto de Li Wein Han, diretor de um dos
departamentos do Comité Central do Partido Comunista chinês, "A Igreja
católica e Cuba. Programa de ação". A norma é a seguinte: "Gradualmente
despertar e desenvolver a consciência política dos católicos,
induzindo-as a tomar parte em círculos de investigação e ação política
[...]. Gradualmente, substituiremos o elemento religioso pelo elemento
marxista. Pouco a pouco [...] os católicos destruirão, por sua
espontânea determinação, as imagens divinas que eles mesmos criaram" (em
"Cursillo — To Deceive the Elect!", p. 126).
Segundo esse
programa, o encaminhamento para o comunismo deveria fazer-se aos poucos,
gradualmente, misturando interesse político com preocupação religiosa.
Cursilhos, onde encontramos uma estranha mescla de ortodoxia e
esquerdismo, não teriam caído em semelhante malha?
Contra el orden natural y la Revelación
51.
Ao abraçarem teses marxistas, as publicações cursilhistas que o fazem
não refletem sobre a oposição frontal que há entre o marxismo e a ordem
natural, entre a filosofia social comunista e os muitos ensinamentos do
Magistério eclesiástico sobre o assunto, bem como esquecem as
condenaçoes reiteradas do comunismo, em documentos da Santa Sé.
A
Encíclica de Pio XI "Divini Redemptoris", que expõe a concepção
católica da ordem social e a comunista, evidenciando a incompatibilidade
absoluta que há entre uma e outra, recorda também os Documentos
pontifícios que fulminaram o comunismo (AAS, 29, 66 ss.). Começa citando
Pio IX, que na Encíclica "Qui Pluribus" (9 de novembro de 1846)
estigmatiza "aquela nefanda doutrina do chamado comunismo, sumamente
contrária ao próprio direito natural e que, uma vez admitida, levaria à
subversão radical dos direitos, cousas e propriedades de todos, e da
mesma sociedade humana''. Mais tarde, Pio IX renovou a condenação do
comunismo no parágrafo IV do "Syllabus". Depois de Pio IX, Leão XIII
definiu o comunismo como "peste destruidora que, infeccionando a medula
da sociedade humana, a levaria à ruína" (Encíclica "Quod Apostolici
Muneris", de 28 de dezembro de 1878). Enfim, o mesmo Pio XI, antes da
Encíclica "Divini Redemptoris", já havia despertado a vigilância dos
fiéis contra o comunismo, condenando-o em vários Documentos de sua
suprema autoridade apostólica: em 1924, em Alocução ao mundo todo (18 de
dezembro); na Encíclica "Miserentissimus Redemptor" (8 de maio de
1928); na Encíclica "Quadragesimo Anno" (15 de maio de 1931); na
Encíclica "Caritate Christi Compulsi" (3 de maio de 1932); na Encíclica
"Acerba Animi" (29 de setembro de 1932); na Encíclica "Dilectissima
Nobis" (3 de junho de 1933). Depois de Pio XI, seu Sucessor, Pio XII, em
várias ocasiões confirmou o ensinamento tradicional sobre o comunismo.
Célebre é, nesse sentido, a alocução ao "Katholikentag" de Viena (14 de
setembro de 1952), na qual declara o Papa que a Igreja lutará, com todas
as suas energias, contra o socialismo, que nesta segunda metade do
século ameaça devorar as pessoas e as famílias ("Discorsi e
Radiomessaggi", vol. XIV, pp. 311 ss.). Por sua vez, João XXIII, na
Encíclica "Mater et Magistra", defende explícita e vigorosamente a
propriedade privada, mesmo dos meios de produção (AAS, 53, 427). O Papa
tem em vista, naturalmente, os comunistas, uma vez que semelhante tese
se opõe diametralmente ao ponto de vista marxista.
Falta de obediencia a la Iglesia
52.
Contrariando tais condenações, uma publicação cursilhista chega a dizer
que o católico não deve mais aceitar o que a Igreja ensina, a não ser
que o aprove, depois de submeter o ensinamento da Igreja ao próprio
julgamento. É o que lemos em "Alavanca", órgão do Secretariado Nacional
de Cursilhos do Brasil, em seu número 57, na secção de A. M. Cantatore,
ao apresentar o livro acima citado de Louise Rinser. Pois, entre os
conceitos desse livro que a revista reproduz como especialmente
recomendados, está este: "Antes a gente apelava para a autoridade
doutrinal de Platão, de Aristóteles, de Santo Tomás de Aquino, ou então
podia justificar-se com a frase [...] "a Igreja ensina...". Hoje em dia
todas as verdades têm de ser provadas para se ver se elas ainda se
aplicam à vida moderna tão diferente". Pelo exposto, não é a Igreja que
vai dizer se sua doutrina se aplica à vida moderna. É cada um, ou a
mesma Louise Rinser.
São posições como essa, assumidas por órgãos
oficiais de Cursilhos, que alimentam Nossa suma reserva com relação a
esse Movimento. No caso citado, por exemplo, não se trata de um
ensinamento isolado deste ou daquele Papa. E sim de uma doutrina que
passou para a Tradição, de maneira que dela se pode dizer: "a Igreja
ensina". Ora, não aceitarmos mais o que "a Igreja ensina", isto é, não
aceitarmos mais o ensinamento da Tradição que não nos pareça
modernizado, é sinal de que não somos mais católicos. Pois nisto está a
diferença entre os católicos e os sequazes das várias seitas: aqueles
aceitam as verdades que fazem parte do ensinamento da Igreja, porque a
Igreja as ensina; ao passo que os asseclas das diversas seitas rejeitam
semelhante submissão à Casta Esposa de Jesus Cristo, e se apegam a
doutrinas que recebem de um ou outro heresiarca, em quem confiam mais do
que na Mãe e Mestra, que deixou Jesus Cristo, na terra, para nos
indicar o caminho da salvação. De mãos dadas com os hereges, estão os
que querem julgar de tudo, e só aceitam o que parece mais conforme à sua
ignorância. Estes, como todos os sectários, recusam o que "a Igreja
ensina". Mas recusar o que a Igreja ensina é, ainda que
inconscientemente, desligar-se da Igreja de Cristo.
Laicismo social y político
53.
No mesmo sentido de convergência com o marxismo, temos ainda que
lamentar o que certos meios cursilhistas pregam sobre o ideal laicista.
De fato, entre os pontos de doutrina comuns a marxistas e cristãos,
aponta "Trípode" a laicidade do Estado e da sociedade (n.° 55, p. 9,
artigo "¿En qué coinciden marxistas y cristianos?", de José Ma. de
Llanos). Declara que é possível um humanismo por cima das confissões
religiosas, para cuja realização colaborem marxistas e cristãos, uma vez
que o Estado "não deve ter o privilegiado apoio de nenhuma ideologia,
pois sua missão própria não é nem cristã nem atéia, mas simplesmente
humana". Sob este ponto de vista, o Estado é, acrescenta a revista, como
"os cabeleireiros e as confeitarias".
Em semelhante atitude laica, como salvar o dever do católico, que é de impregnar de espírito cristão a sociedade e o Estado?
Réu confesso
54.
Não encerremos, amados filhos, estas nossas observações sobre Cursilhos
de Cristandade, sem salientar a nota que se encontra à página 5 do
rolho que apresenta o texto das Meditações para o tríduo cursilhista
(Secretariado Nacional da Espanha, Madrid, 1968).
Declara-se aí
que "em 1949 e na década seguinte", porque eram "outros os tempos",
Cursilhos precisaram velar algum tanto sua concepção da Graça e da vida
cristã, citando nas suas publicações (quer dizer que oralmente eram mais
claros!) "só ou prevalentemente os autores e textos tradicionalmente
admitidos por todos". Deviam defender a "ortodoxia dos Cursilhos".
Acontece,
continua o rolho, que, com. o Vaticano II, "algo de transcendental se
passou na vida da Igreja". Não precisaram mais Cursilhos velar sua
doutrina a fim de não parecerem menos ortodoxos (41).
Uma tal
observação, amados filhos, não é de molde a afugentar Nossos temores.
Pelo contrário. Deixa ela em Nossa mente uma interrogação: — Pensarão
Cursilhos que a doutrina sobre a Graça e a vida cristã, antes do
Vaticano II, não era correta, não era ortodoxa? Ou, pelo menos, pensarão
que nela havia uma lacuna fundamental, que só agora foi preenchida?
Julgarão que os fiéis tiveram que esperar até o II Concílio do Vaticano,
para saber o que é a vida cristã? — Em tal caso, o acontecimento do
Vaticano II, neste ponto, teria sido realmente transcendental!
Nós,
porém, diante de semelhante nota de Cursilhos, temos um motivo a mais
para temer quanto à ortodoxia do ensinamento cursilhista sobre a Graça e
a vida cristã. Mais. Como Cursilhos, antes do II Concílio do Vaticano,
velavam sua doutrina, quem nos assegura que não a continuem a velar, em
outros pontos, na expectativa de que mais uma vez "se passe algo de
transcendental na Igreja"? Não está nisso envolvido o segredo e o ar de
mistério com que certos cursilhistas se referem ao que se passa no
tríduo?
CONCLUSIÓN
55. Com esta Carta Pastoral,
respondemos, amados filhos, ao desejo, que muitos de vós Nos
manifestastes, de ter uma palavra de orientação sobre Cursilhos. Como
vedes, caríssimos Cooperadores e amados filhos, temos grandes
perplexidades com relação a esse novo "instrumento de renovação cristã",
perplexidades que Nos levam a desaconselhar vivamente a que vos deixeis
envolver por ele. Dada a analogia que, ao longo desta Carta, notamos
entre Cursilhos e "Le Sillon", Nós vos aconselhamos a leitura da Carta
Apostólica de São Pio X a respeito daquele movimento igualitário, que
surgiu na França, entre católicos, no começo deste século. A palavra
altamente autorizada de São Pio X vos iluminará sobre a orientação da
Igreja em matéria de renovação social, e vos confirmará na atitude de
reserva a ser assumida em face de Cursilhos de Cristandade.
56.
Evitemos, amados filhos, métodos de formação novos que não se ajustem
aos ensinamentos tradicionais da Igreja. Nesta ocasião, desejamos
recomendar, muito especialmente, os Exercícios Espirituais de Santo
Inácio de Loyola, elogiados por muitos Papas, encarecidos por Pio XI
como elemento indispensável de formação ascética (AAS, 14, pp. 629 ss.).
Nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio, em aliança harmoniosa, a
fé, a razão e a sensibilidade colaboram para o enrijecimento da vontade
na prática da virtude, na perseverança no amor de Deus. A fé e a razão
indicam o lugar próprio do homem na ordem da criação: feito para Deus,
para sua glória, deve ele utilizar-se das criaturas, na medida em que o
auxiliem na consecução do fim para que foi criado. Bem fixado o
princípio e fundamento, é o homem auxiliado a viver de acordo com ele,
mediante os meios subministrados, não apenas pela psicologia humana, mas
sobretudo pela Graça e pelos exemplos vivos de Jesus Cristo, cujo
currículo terreno abarca a maior parte das meditações na obra de Santo
Inácio.
57. Na utilização dos métodos tradicionais, sejam as
ilustrações tomadas também a exemplos atuais, sejam as explanações
feitas de modo accessível aos homens de nosso tempo; a doutrina, porém, e
o modelo sejam os de todos os tempos: a Revelação e a figura adorável
de Jesus Cristo, que é de hoje, como foi de ontem e será de todos os
séculos, "heri et hodie Ipse et in saecula" (Heb. 13, 8).
58. Na
ordem social, difundamos, por todos os meios, a doutrina da Igreja, que
não há outra capaz de formar uma sociedade e um Estado que ponham a
salvo os direitos dos indivíduos, das famílias e dos grupos sociais. Por
isso, os Papas, que tomaram a si o encargo de desenvolver este capítulo
da doutrina da Igreja, insistem em que a primeira condição de uma
reforma social benéfica, está na conversão interior e na vida cristã.
Aliás,
foi o que Jesus Cristo ensinou. Ele não pregou nenhuma subversão da
ordem estabelecida. Pelo contrário, esquivou-Se da multidão, quando
quiseram aclamá-Lo Rei (Jo. 6, 15), reconheceu a autoridade do
Procurador romano (Jo. 19, 11) e, de modo geral, fixou o princípio: "Dai
a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" (Mat. 22, 21).
Não
obstante, sob a influência dos princípios que Nosso Senhor pregou e
difundiu no mundo, mediante seus Apóstolos, o Império Romano passou por
modificações profundas e regeneradoras. Mais tarde, quando os bárbaros
esfacelaram aquele império, a Igreja, agindo sempre de acordo com o
exemplo do Divino Mestre, exerceu, mais uma vez, sua influência
regeneradora sobre os novos povos. Construiu assim a civilização cristã,
que no dizer de Leão XIII levou ao seu ápice a humanidade.
59.
Confiamos em que a Santíssima Virgem Maria, Senhora e Mãe nossa
terníssima, Se digne abençoar esta Nossa Carta Pastoral, fazendo-vos,
caríssimos Cooperadores e amados filhos, compreender que a situação
delicada por que passa a Igreja — Paulo VI falou mesmo num processo de
"autociemolição" (42) — pede muita vigilância para permanecermos fiéis à
Sagrada Tradição.
A vós todos, caríssimos Cooperadores e amados
filhos, enviamos, do íntimo de Nossa alma, paterna bênção pastoral, em
nome do Pa†dre e do Fi†lho e do Espírito†Santo. Amém.
Dada e
passada sob Nosso Sinal e selo de Nossas Armas, na Episcopal Cidade de
Campos, aos quinze de agosto de mil novecentos e setenta e dois, festa
da Assunção Gloriosa da Bem-aventurada Virgem Maria aos Céus.
† Antonio, OBISPO DE CAMPOS
NOTAS
1)
O Movimento de Cursilhos de Cristandade tem como atividade básica a
promoção de pequenos cursos de três dias (daí o seu nome, em castelhano,
de "cursillos"). No tópico número 4, apresentamos uma breve descrição
desses tríduos. Para maior clareza, nesta Carta Pastoral indicaremos o
Movimento como Cursilhos, com inicial maiúscula, e o tríduo como
cursilho, com inicial minúscula.
De si, aqueles que fizeram o
cursilho ingressam na chamada fase do Pós-cursilho. Participam de
reuniões de grupo locais. Reuniões maiores, que congregam periodicamente
vários grupos, recebem o nome de Ultreyas. O Movimento também publica
livros e revistas, promove cursos para dirigentes (a cargo das chamadas
Escolas de Dirigentes), organiza congressos nacionais e internacionais,
etc.
2) Para a elaboração desta Carta Pastoral, não utilizamos
apenas escritos cursilhistas de origem brasileira, mas também, e em
larga escala, documentação em língua castelhana.
Agimos assim porque,
de um lado, é nesse idioma que se fizeram as publicações mais
importantes, essenciais mesmo, de Cursilhos, como a edição espanhola dos
rolhos ou conferências do tríduo cursilhista ("Rollos de Cursillos de
Cristiandad", edição do Secretariado Nacional de Cursilhos de
Cristandade da Espanha, 15 fascículos, Euramerica, Madrid, 1968), e as
obras de D. João Hervás, o grande propulsor de Cursilhos na Espanha,
país de origem do Movimento (citaremos especialmente o seu "Manual de
Dirigentes de Cursillos de Cristiandad", Euramerica, Madrid, 1968, 6.a
edição, e a sua Carta Pastoral "Los Cursillos de Cristiandad,
instrumento de renovación cristiana", Euramerica, Madrid, 1968, 7.a
edição).
E, de outro lado, porque, dada a unidade de orientação de
Cursilhos, sobretudo na América Latina, e dado o grande intercâmbio de
publicações que eles promovem entre os países do Continente, é legítimo e
até necessário examinar o que é editado pelos numerosos Secretariados
nacionais e diocesanos, para conhecer a natureza do Movimento e os rumos
que com o passar do tempo vai tomando.
3) Todas as citações dos
rolhos que faremos nesta Nossa pastoral são tomadas da edição do
Secretariado Nacional de Cursilhos de Cristandade da Espanha (Madrid,
1968).
4) Tem havido adaptações de rolhos com o fim de ajustá-los
melhor ao ambiente das várias nações. No Brasil formulou-se, por
exemplo, o esquema de um novo rolho sobre a fé. Tais adaptações, no
entanto, não têm mudado a doutrina e as diretrizes gerais do Movimento.
5)
Damos aqui o texto, objeto de Nossas observações : "Esta amizade de
Deus conosco é algo fabuloso, extraordinário. Diz Santo Tomás, o grande
teólogo, que a amizade só se dá quando há, por um lado, igualdade entre
os amigos, e, por outro, comunicação de bens. Deus não é alguém que se
aproxima de mim lá de sua altura e se inclina condescendente, por
compaixão ou filantropia, como quando um rico dá uma esmola a um pobre
lá da altura de sua riqueza; isto humilha e fere a dignidade em certa
maneira, embora remedeie uma necessidade. Não. Deus é um verdadeiro
amigo, alguém que está em plano de igualdade comigo, alguém que pela
Graça me eleva até a sua altura, me transforma para que eu possa
falar-lhe de tu a tu, como a um amigo. A amizade da Graça te coloca num
plano de igualdade com Deus e consiste em que Ele se comunica, se dá
totalmente a ti, e tu te dás completamente a Ele, como dois amigos se
comunicam o que têm de mais íntimo" (p. 30).
Note-se que o rolho,
neste trecho, apela para a autoridade de Santo Tomás de Aquino.
Infelizmente não indica o lugar do Doutor Angélico em que se apóia.
Observemos que, quando Santo Tomás fala da elevação do homem à dignidade
de filho adotivo de Deus, mediante a participação da natureza divina,
que a Graça confere, toma o cuidado de sublinhar que não se trata de uma
igualdade propriamente dita. Fala de "quadam similitudine" (alguma
semelhança — cf. 1-2, q. 110, a. 4; q. 112, a. 1). E na 1, q. 33, a. 3,
diz taxativamente: "na criatura a filiação, com relação a Deus, se
encontra, não segundo uma razão perfeita, porquanto não é a mesma a
natureza do Criador e a da criatura, mas segundo alguma semelhança".
6)
A esmola é apresentada na Sagrada Escritura como ato bom e louvável.
Obtém de Deus indulgência para os pecados (Tob. 12, 9; Ecli. 3, 33; 29,
15; Luc. 11, 41; etc.). É diretamente recomendada (Ecli. 7, 10; Mat. 6,
2-4; Luc. 14, 13; etc.). Jamais é a esmola considerada, em si mesma,
como um ato que humilhe o pobre. Aliás, a Igreja não fomentaria as
instituições que se destinam a angariar esmolas para distribuí-las aos
pobres.
Com o que aqui ponderamos, não queremos censurar outras
instituições, cuja finalidade é auxiliar o necessitado a sair de sua
situação para outra, na qual possa prover por si mesmo às suas
necessidades. Desejamos, apenas, salientar que a esmola é, em si, cousa
boa e louvável, nada tendo que possa legitimamente vexar o pobre.
7)
Eis o texto: "Evidentemente, não falamos de um conceito dè santidade
que é talvez o que temos na cabeça, um conceito falso que provém destas
figuras de santos de gesso, que não se sabe se são( homens ou mulheres e
de quem nos contam que faziam cousas estranhas, como passar a metade da
vida sobre uma coluna, ou não levantar nunca os olhos do chão; as
extravagâncias nunca poderão identificar-se com a santidade, nem
confundir-se com ela; é possível que tenha havido santos que eram tipos
estranhos; foram, porém, santos, apesar de serem estranhos" (p. 35).
8)
"Pois então: não interessa este mundo? Se somos peregrinos que
caminhamos para o Reino definitivo de Deus, se o que nos interessa é a
Pátria final, porque preocuparmo-nos deste mundo visível, que por fim
desaparecerá? —Assim pensaram muitos cristãos, refugiando-se numa
religiosidade desencarnada, angelista, onde só contam as realidades
sobrenaturais. Sem embargo, não é este o pensamento de Deus" (rolho
"Graça habitual", p. 42).
9) A mesma orientação humanista que
apontamos no rolho "Graça habitual", encontra-se em várias publicações
cursilhistas recentes. Damos disso a seguir alguns exemplos, extraídos
de documentos do III Encontro Latino-Americano de Delegados Nacionais do
Movimento de Cursilhos de Cristandade (maio de 1972, Itaici, São Paulo —
Encontro que designaremos pela sigla "III ELA"), e do livro "Reflexões
para Cursilhistas de Cristandade", de Sebastián Gayá Riera (Secretariado
Nacional de Cursilhos de Cristandade do Brasil, São Paulo, 1970).
No
"Documento de Itaici", que contém as conclusões do III ELA, lemos que
"o Deus da Criação e o Deus da Revelação não têm palavras divergentes e
contraditórias, mas convergentes para um mesmo fim: O BEM DO HOMEM E O
BEM DA HUMANIDADE" ("Alavanca", órgão do Secretariado Nacional de
Cursilhos do Brasil, n.° 67, 1972, p. 33 — o destaque em versalete é
nosso). — Esta frase procura justificar a atitude fundamental do leigo,
isto é, estar "imerso nas realidades temporais". Por ela se percebe,
pois, em que sentido deve o leigo desenvolver sua ação no meio em que
está imerso.
Na introdução ao "Documento de Itaici" (a qual é de
responsabilidade do Escritório Latino-Americano de Cursilhos),
recomenda-se aos "que têm responsabilidades no Movimento de Cursilhos",
que "procurem no texto completo dos trabalhos [apresentados no III ELA],
as razões das conclusões e dos postulados" ("Alavanca", n.í° 67, p.
29). De onde podemos ilustrar a conclusão que acima citamos, com a
contribuição da Colômbia ao III ELA, em cujo texto, publicado em
"Testimonio", órgão do Secretariado Nacional de Cursilhos da Guatemala,
lê-se esta passagem: "O grupo cristão deve buscar a solução do problema
fundamental do homem: A FELICIDADE. E o homem não é somente espírito.
Nossos grupos não podem estar carentes de sabor humano, porque assim
estariam carentes de sabor cristão. A felicidade do homem não se pode
alcançar sem Deus, porém a fé não trata PRIMEIRAMENTE de Deus-em-si,
SENÃO DO HOMEM E SEU APERFEIÇOAMENTO nEle" (edição extraordinária de
"Testimonio", n.° 45, abril de 1972, p. 95 — destaque nosso). — Em
semelhante perspectiva, torna-se difícil compreender a distinção entre
sagrado e profano, porque o que é mais humano é, por isso mesmo, mais
divino, segundo afirma o "Documento de Itaici": devem os leigos estender
"mão fraternal a todos os que procuram realizar um mundo mais humano,
e, por isso mesmo, mais. divino" ("Alavanca", n.° 67, p. 33).
Por
outro lado, está muito ao sabor de semelhante perspectiva, enaltecer
preponderantemente a caridade, no seu aspecto de obra de misericórdia
temporal. É o que insinua a afirmação de "Reflexões para Cursilhistas de
Cristandade", de Sebastián Gayá Riera, quando, reportando-se ao
capítulo 25 do Evangelho de São Mateus, diz que o Juízo Final será todo e
somente sobre a caridade (p. 168).
Já a seu tempo, São Paulo
advertia os fiéis sobre uma falsa noção de caridade, quando na Primeira
Epístola aos Coríntios, capítulo 13, dizia que a esmola e os demais
benefícios em favor do próximo são nada, se não vêm informados pela
caridade, virtude teologal que permanece na Eternidade, ao invés da fé e
da esperança, que desaparecem.
10) A perspectiva de um otimismo
ingênuo e naturalista, com que o rolho sobre a Graça habitual encara o
mundo, reaparece em outros documentos cursilhistas.
Assim, a
contribuição do México ao III ELA ("Testimonio", n.° 45, pp. 59 ss.)
lamenta: "a Igreja se havia voltado excessivamente sobre si mesma, se
havia desencarnado, tinha voltado as costas ao mundo", afastando-se do
"terreno em que Deus a quer", e onde o leigo "vai situá-la de novo" (p.
61).
Já Sebastián Gayá Riera, em "Reflexões..." havia batido na mesma
tecla: "Mais do que vivermos sob o pavor [...] dos perigos do mundo,
importa lançarmo-nos à rua para, fazermos fermentar cristãmente o mundo,
com TODOS OS SEUS ELEMENTOS, AMBIENTES E ESTRUTURAS que barram a
passagem a Cristo" (p. 55 — destaque nosso).
O "Documento de Itaici",
do III ELA, faz eco a "Reflexões...", ao recomendar como atitude
fundamental que deve informar a missão dos leigos, "estarem abertos para
o mundo e imersos nas realidades temporais" ("Alavanca", n.° 67, p.
33).
No mesmo sentido, pode-se ver o livro "El Pueblo de Dios en
Marcha" (Ediciones Sígueme, Salamanca, 1965), de Luis Alberto Machado,
Reitor da Escola de Formação do Movimento de Cursilhos de Cristandade em
Caracas.
11) O Pe. Cesareo Gil, do Secretariado de Cursilhos da
Venezuela, endossa a mesma crítica em "Siete Rollos para Dirigentes de
Cursillos de Cristiandad" (Sociedad de Educación Atenas, Madri, 1971,
pp. 174-175): "Deixar de amar o mundo, abandonar as realidades terrenas
para refugiar-se na solidão, é esquivar a responsabilidade própria da
cristandade, que consiste, fundamentalmente, em apresentar viva a pessoa
de Cristo aos homens de hoje, para assim consagrar o mundo a Deus".
12)
Sobre tal concepção do Pe. Teilhard de Chardin, vejam-se, por exemplo,
suas obras "Le Phénomène Humain" (Editions du Seuil, Paris, 1955) e "Le
Milieu Divin" (Editions du Seuil, Paris, 1957).
13) Nesse
documento, datado de 30 de junho de 1962, a Suprema Sagrada Congregação
do Santo Ofício declarava que certas obras do Pe. Teilhard de Chardin
sobre filosofia e teologia "contêm ambigüidades e mesmo erros tão
graves, que elas ofendem a doutrina católica"; e exortava "todos os
Ordinários e Superiores de Institutos religiosos, os Reitores de
Seminários e os Presidentes de Universidades a defender os espíritos,
particularmente os dos jovens, contra os perigos das obras do Padre
Teilhard de Chardin e de seus discípulos" (L'Osservatore Romano", edição
em francês, de 13 de julho de 1962).
14) Cfr.: "Trípode", órgão
oficial de Cursilhos de Cristandade da Venezuela, n.° 55 (janeiro de
1969, p. 20); n.° 70 (maio de 1970, p. 20); "Testimonio", n.° 45 (abril
de 1972, p. 70).
O Pe. Agustin Augustinovich, acatado autor com
várias obras sobre Cursilhos, apela com freqüência a Teilhard de Chardin
em abono de suas teses. Vejam-se "Vivencia de la Iglesia Comunidad
Orientaciones para Cursillistas" (Sociedad de Educación Atenas, Madri,
1972, p. 162) e "Líneas Biblicas del Movimiento de Cursillos" (Ediciones
Sígueme, Salamanca, 1970, pp. 24, 27, 35 et passim).
15) Cfr.
"Alavanca", órgão do Secretariado Nacional de Cursilhos de Cristandade
do Brasil, n.° 56, maio de 1971, p. 13; n.° 62, dezembro de 1971, p. 33;
n.° 65, 1972, p. 34.
16) Poderia talvez alguém estranhar o fato
de exprimirmos apreensões quanto a este ponto. Pois em geral Cursilhos
se apresentam como um Movimento alheio à subversão. Infelizmente, porém,
um exame atento de certas publicações cursilhistas revela que nossas
apreensões neste particular não são infundadas. Como mostraremos adiante
(tópicos 35 ss.), há círculos cursilhistas que chegam a revelar
simpatias para com o marxismo e para com os Padres contestatários.
Desde
já, queremos referir dois textos que falam por si. Trata-se de
documentos que a revista "Trípode", órgão do Secretariado Nacional de
Cursilhos da Venezuela, acolheu em suas páginas sem restrição alguma:
a)
"Que as mudanças na América Latina têm de ser rápidas, urgentes e
TOTAIS, envolvendo em sua realização todos os homens de boa vontade,
declarou [...] o Revmo. Pe. Edgard Beltrán, Secretário Executivo do
Departamento de Pastoral de Conjunto do Conselho Episcopal
Latino-Americano (CELAM). [...] Sobre os grupos proféticos ou
contestários (casos de Golconda, ISAL, Terceiro Mundo, etc.), o Padre
Beltrán disse que "por eles se tem sempre um grande respeito", e que "se
quer ouvi-los pela muita verdade que podem ter suas impostações"
("Trípode", n.° 83, de julho de 1971, p. 2 — o destaque em versalete é
nosso).
b) "Entre nós já vive o Reino de Deus, entre nós está a
levedura que transforma. Nada poderá deter nossa revolução. "Cristãos e
homens de boa vontade, uni-vos", deve-se apregoar, copiando a frase de
Marx em seu Manifesto. Pois ambas as revoluções, a comunista e a cristã,
buscam um fim comum: A COMPLETA transformação das relações humanas.
Eles com esperança, nós com esperança e certeza" ("Trípode", n.° 55, de
janeiro de 1969, p. 20, artigo "Revolución y Cristianismo", transcrito
de "El Mensajero" destaque nosso).
17) O movimento kerigmático
surgiu na Igreja pelos idos de 1930, apresentando uma concepção nova e
estranha da teologia e da vida cristã. Por esse motivo foi objeto de
críticas severas. Acossado por semelhantes críticas, sofreu uma evolução
à medida que seus adeptos buscavam se acobertar de tais impugnações.
Vejam-se por exemplo: A. Jungmann, "Die Frohbotschaft und unsere
Glaubensverkuendigung" (Ratisbona, 1936) ; "Katechetik. Aufgabe und
Methode der religioesen Unterweisung" (Viena, 1953); P. Liégé, artigo
"Evangélisation", em "Catholicisme", IV, 755-764; J. M. R. Tillard,
"Principes pour une Catéchèse Sacranientaire Vraie" ("Nouvelle Revue
Théologique", 1962, pp. 1044 ss.); R. Latournelle, "Théologie de la
Révélation" (Montreal, 1963).
Não cabe nos limites desta Carta
Pastoral, nem está dentro de sua finalidade, acompanhar semelhante
evolução, ou dar do kérigma uma exposição técnica, ainda que sumária.
Para a orientação de Nossas ovelhas basta que compreendam que a maneira
como Cursilhos propõem a conversão kerigmática e a opõem à Catequese
oferece o perigo de desviá-las do conceito exato da Fé e vida cristã que
tradicionalmente a Igreja tem ensinado.
18) Esta maneira
"vivencial" de encarar a Fé e a conversão é considerada essencial em
Cursilhos, como se pode ver através de publicações cursilhistas.
Assim,
o artigo "Los Cursillos de Cristiandad, instrumento de la Iglesia para
la renovación cristiana del mundo", de Clemente Sánchez, publicado no
citado número extraordinário de "Testimonio", à página 9 explica:
"Vivência do fundamental cristão para nós é o mesmo que EXPERIÊNCIA viva
e pessoal do gozo que produz a verdade cristã; satisfação interior,
profunda, embriagadora e inefável que se SENTE ao viver este mundo
sobrenatural que supõe a graça e a amizade de Deus" (destaque nosso). -
Pouco antes (p. 8), opunha-se tal vivência ao simples pensar e conhecer:
"Dissemos vivência pessoal, não sentimentalismo estúpido e
despersonalizado, nem frio e inoperante intelectualismo; mas sim
EXPERIÊNCIA viva, concreta, intuitiva, AFETIVA e efetiva. À diferença do
simples pensar e conhecer, a vivência é uma resposta vibrante diante de
um valor" (destaque nosso) — Cf. também Clemente Sánchez e Francisco
Suárez, "Cursillos de Cristiandad Abiertos al futuro", edição do
Secretariado Nacional de Cursilhos da Espanha, Euramerica, Madrid, 1971,
pp. 19 ss., 474-475.
Por sua vez, as conclusões do III ELA,
constantes do "Documento de Itaici" ("Alavanca", n.o 67, p. 30),
reafirmam que "Cursilhos de Cristandade são um movimento vivencial", que
devem ser "a proclamação kerigmática da mensagem de Cristo, visando a
vivência do Mistério Pascal", que desejam acentuar "a busca da conversão
na vivência e no testemunho [...], tornando concreto aquilo que se
proclama", etc. — Como se vê, Cursilhos insistem em se declarar na linha
kerigmática vivencial, e, pelo mesmo fato, não na linha propriamente
catequética.
O último trecho das conclusões do III ELA citado, faz
lembrar a definição de kérigma dada por Rahner, e apresentada, com
comentários, pela Delegação da Nicarágua ao III ELA ("Testimonio", n.°
45, pp. 34 ss.). Semelhante definição se aproxima do modernismo, como se
pode ver pela sua leitura: "Kérigma, em sentido pleno, é a pregação
atual, determinada pela situação histórica, da palavra de Deus na
Igreja, mediante pregadores que, acreditados por Deus, dão testemunho.
Esta palavra, pronunciada pelos pregadores em fé, esperança e amor, pela
virtude do Espírito, torna presente aquilo mesmo que é pregado (e no
que o mesmo Deus se promete ao homem), como mensagem evangélica da
salvação e como força obrigatória e normativa, que permite que a
história da salvação em Jesus Cristo esteja presente "agora" segundo seu
princípio e seu fim - cada um a seu modo - de tal maneira que esta
palavra, feita por sua vez acontecimento nas cousas ditas e ouvidas,
possa ser aceita pelo ouvinte em fé e amor".
Uma tal perspectiva é
completada pela crítica aos Catecismos dos Doutores da Igreja, São
Roberto Belarmino e São Pedro Canísio (id., p. 36) — que no entanto
muito contribuíram para salvaguardar a Fé no povo contra a infiltração
dos erros protestantes.
O Padre belga Joseph Comblin, que se tornou
conhecido em todo o País por seus escritos subversivos, exprime um
conceito semelhante de fé em seu livro "A Fé no Evangelho", recomendado
pelo órgão de Cursilhos de Cristandade do Brasil, "Alavanca" (n.° 65, p.
34). À página 83 desse livro do Pe. Comblin (Vozes, Petrópolis, 1969),
lê-se: "Ter fé é saber interpretar as situações da vida individual e
social dentro da marcha do reino de Deus à luz da revelação de Cristo
sobre esse reino. Arte difícil e perigosa. Obra de prudência verdadeira
que nos faz desconfiar, criticar as interpretações recebidas e
conformistas, deixar as veredas do passado que não servem mais, e
permanecer sempre disponíveis para novas orientações. A fé verdadeira
não é inerte, mas dinâmica. Não temos a fé de modo estável e garantido.
De modo estável e garantido podemos guardar fórmulas e confissões
literais. MAS A FÉ VERDADEIRA PRECISA RENOVAR O CONTEÚDO DAS FÓRMULAS:
ESTA É A OBRA DO ESPÍRITO" (destaque nosso).
O Pe. Augustinovich,
conhecido por seus livros sobre Cursilhos, na sua obra "Vivencia de la
lglesia Comunidad", à página 117, também pleiteia mudança das expressões
e dos conceitos religiosos : "É indispensável uma adaptação de nossa
catequese: conceito de Deus, accessível à atual visão do mundo; conceito
do homem; a natureza e a graça; sentido da história; dinamismo da
Igreja...; praticamente, temos que rever tudo".
É verdade que há em
textos cursilhistas a afirmação do caráter intelectivo que muitos
autores atribuem ao kérigma. Mas tal afirmação é, no seu contexto,
sempre confusa e insuficiente. Examinemos uma passagem característica
nesse sentido: a delegação da Nicarágua ao III ELA declara que o kérigma
"aspira a dar a conhecer Cristo e sua mensagem" e "se dirige à
inteligência" ("Testimonio", n.° 45, p. 39). — Bem analisado, no
entanto, o texto e seu contexto, vê-se que o papel da inteligência na
"conversão" kerigmática não é o que pede o I Concílio do Vaticano para a
fé, inicio da salvação. Para a delegação da Nicarágua, kérigma e
testemunho são dois elementos inseparáveis que, em bloco, arrastam à
conversão. Manifestam-se de modo vivo no pregador carismático, cuja
palavra está especialmente vivificada pelo Espírito, que determina a
adesão a Cristo, mediante uma assimilação vital, experimental, do que é
proposto (cf. "Testimonio", n.° 45, p. 39). Não se declara aí de modo
nítido, nos termos do I Concílio do Vaticano, o papel desempenhado, no
ato de fé, pela inteligência — a qual deve aceitar a verdade revelada,
embora tal aceitação deva ser completada pela caridade, para eficazmente
salvar.
Em semelhante concepção de fé, explica-se que haja
dirigentes de Cursilhos, para quem certos fatos constituem, ao lado da
Escritura, da Tradição e da Liturgia, um novo lugar teológico, ou seja,
uma nova fonte de conhecimento da verdade revelada. Leia-se este tópico
da delegação mexicana ao III ELA: "ao longo da história humana
encontramos "fatos significativos" reveladores da marcha futura da
história. A ação, por exemplo, de um pequeno grupo de rebeldes
parisienses, ao tomar a Bastilha em 1789, foi relativamente
insignificante e semelhante a muitos outros acontecimentos da mesma
índole. No entanto, tornou-se e foi de tal maneira significativo, que
durante mais de um século veio a ser um autêntico símbolo da história do
mundo ocidental. — Parecidos a este tem havido, e continua a haver uma
multidão de acontecimentos que são definitivamente significativos na
história humana: a emancipação das classes trabalhadoras, o
reconhecimento do lugar da mulher na vida pública, a emancipação dos
povos que estiveram ou estão submetidos a regimes coloniais, a
planificação universal, a unificação do mundo, a socialização
progressiva dos diversos aspectos da vida humana, desde os econômicos
até os espirituais e culturais, etc. — TODOS estes fatos são
"definitivos", quer dizer, não têm marcha à ré no acontecer humano. — A
novidade, para a Igreja, dos "sinais dos tempos", é que estes fatos se
manifestam como reveladores dos desígnios da vontade de Deus. SÃO como
um NOVO LUGAR TEOLÓGICO AO LADO DA ESCRITURA, DA TRADIÇÃO E DA LITURGIA"
(destaques nossos — "Testimonio", n.° 45, p. 68). — Portanto, não é a
Igreja que ensina e guia o mundo; é o mundo que, nos fatos históricos
"irreversíveis", revela à Igreja a vontade de Deus! — Entende-se porque
há em publicações cursilhistas muita simpatia e adesão a Teilhard de
Chardin. O novo lugar teológico está muito de acordo com o evolucionismo
do famigerado "teólogo" jesuíta.
19) Quer nos rolhos do
Secretariado Nacional de Cursilhos da Espanha, quer no "Manual de
Dirigentes" de D. Hervás, a orientação do tríduo cursilhista faz-se com
expressões que acentuam o fator emotivo. Demos alguns exemplos (os
destaques em versalete serão nossos):
a) Terceira fase do
cursilho (3.° dia). Problemas particulares deste dia: é muito freqüente
alguém que esteja angustiado pela preocupação de não "sentir nada",
"preocupação que às vezes se converte em tortura pelo contraste com a
alegria TRANSBORDANTE dos demais [...]. Trata-se muitas vezes de pessoas
piedosas [...] mas talvez de uma piedade centrada no seu eu [...]. Sua
reação, portanto — será preciso adverti-las — não pode ser a mesma que a
daqueles companheiros do cursilho que SE SINTAM FASCINADOS ante um
Cristo ao qual não conheciam ou haviam perdido e ao qual acabam de
encontrar" (D. Hervás, "Manual de Dirigentes", pp. 172-173).
b)
5.a Meditação, "Mensagem de Cristo ao cursilhista" — "E preciso fazê-lo
SENTIR a voz do Mestre, que lhe diz algo EM CONCRETO [...]. É preciso
dar-lhe um ar TRIUNFAL" (D. Hervás, "Manual de Dirigentes", p. 175).
c)
Visita ao Santíssimo: Todos se aproximam do Sacrário; "o Reitor dirá
com naturalidade, DANDO A MAIOR INTIMIDADE POSSÍVEL às suas palavras
[...]" (D. Hervás, "Manual de Dirigentes", p. 261).
d) Outras
normas do "Manual de Dirigentes" para durante o cursilho: Propõe-se-lhes
a partir da manhã do 1.° dia o anúncio gozoso da Graça, da amizade de
um Deus-Amigo, e, então, sempre dentro de um ambiente de espontaneidade,
alegria, camaradagem, anedotas, etc. Assim, por exemplo, o Reitor deve
cuidar que o ambiente de animação e as piadas continuem nos outros dias
(p. 268). O Diretor espiritual do cursilho deve viver todos os seus
momentos, desde os rolhos até os chistes (p. 282); poderá contar algum
chiste, desde que tenha graça e saiba contá-lo com graça (p. 285). Nos
momentos de alegria expansiva, não deve ausentar-se ou retrair-se, mas
tampouco deve intervir ativamente (p. 285). — Perguntamos: que espécie
de "alegria expansiva" será essa, na qual o Diretor espiritual não deve
intervir ativamente?
e) Rolho "Estudo do ambiente": "Introdução.
Chegamos, com a graça de Deus, a este terceiro dia do cursilho, e, como é
natural, todos estamos "DE COLORES" [...]. "De Colores" é a exclamação
jubilosa do cursilhista que vive em graça. Por isso [...] a dizemos
continuamente [...]. Tenho a certeza de que muitos de vós, ante a
realidade da alegria que estais EXPERIMENTANDO" (p. 13), desejais
"contagiar a todos com a felicidade que levais dentro de vós" (p. 14).
f)
Rolho "Vida em Graça" (3.° dia, antes do almoço). "Este rolho [...]
supõe um ambiente de fervor, um ENTUSIASMO geral [...] responde ao
problema que vai preocupando o cursilhista: como fará para não perder o
estado de Graça, em que agora vive com tanta satisfação e alegria" (p.
31). "Estilo: é preciso que TENHA UM AR TRIUNFAL tudo o que se lhes [aos
cursilhistas] vai dizendo e o tom com que se lhes diz" (p. 32).
g)
Rolho "Seguro total": "Ambiente. Nestes momentos do cursilho, o
ambiente está cálido de FERVOR E ENTUSIASMO" (p. 3). "APALPA-SE entre
vós uma felicidade poucas vezes ou nunca SENTIDA" (p. 15). "Notai como
se reflete o anelo de não perderdes o GOZO destes dias" (p. 16). "A
parte vivencial do Rolho tem aqui sua máxima expressão, quando o
Rolhista narrar alguns de seus "momentos" [em que se sentiu mais perto
de Cristo] a título de exemplo" (p. 18).
h) Rolho "O cursilhista
para além do cursilho": "Vós vos SENTIS tão felizes que alguém de vós,
levado pelo ENTUSIASMO E ALEGRIA que está GOZANDO [...]" (p. 13).
i)
Rolho "Piedade": "Este SENTIR a Cristo nos detalhes mais
insignificantes de minha vida foi para mim uma das descobertas do
cursilho" (p. 26). "O que está em Graça e está consciente disso, desde
que se levanta até que se deita, desde o primeiro momento até o último
do dia, todo o seu ser SE REGOZIJA E SE ALEGRA, por saber-se nada menos
que filho de Deus" (p. 27). "Alegria [...], a única, autêntica,
constante, segura, porque vai de dentro para fora, parte da amizade com
Deus e ESCAPA por todos os nossos poros" (p. 36).
j) Rolho
"Ação": "Atuando com Cristo e vivendo em Graça "SOB PRESSÃO". Tendo uma
exuberância de Graça que TRANSBORDE POR TODOS OS POROS ao falar, no
sentir, no dizer e no rir" (p. 42).
k) Rolho "Obstáculos à vida
da Graça": "Conhecer a Deus é o que de maior, de mais DIVERTIDO, de mais
GOZOSO pode fazer um homem" (p. 18). "Entrar nesta comunicação livre e
GOZOSA com Deus que é a oração [...] (p. 27).
l) Rolho
"Dirigentes": "Deus assomava a seu rosto [de um cursilhista] com tanta
afabilidade, com tanta SIMPATIA [...]" (p. 21). "Por isso se conhecem
tão logo os cursilhistas, porque em seu olhar SE REFLETE todo o mar de
felicidade da graça de Deus que levam na alma" (p. 21).
Destacamos
as expressões que melhor acentuam o tom emotivo. Tomadas isoladamente,
podem algumas dessas expressões ter uma explicação legítima. O todo, no
entanto, mostra como a concepção da Graça e da vida em Graça é tal, que
se acentuam desproporcionadamente os elementos emotivos, com perigo de
se transmitir, assim, uma idéia errônea da vida espiritual.
20) É
significativo, a respeito, o seguinte texto: "Este Rolho [o penúltimo
do tríduo] assinala o ponto de união do Cursilho com o Pós-cursilho; é
como uma ponte solidíssima que abre largo caminho a uma gozosa
perseverança [...]. O objetivo do Rolho é assegurar a continuidade do
Cursilho. "Agora começa o Cursilho", dirão os professores. Terminam os
três dias do Cursilho; abre-se o Cursilho perene" (rolho "Seguro total",
pp. 3-4).
21) Documentos e livros que se referem ao Pós-cursilho
insistem na necessidade da formação doutrinária: estudo da Bíblia, do
Catecismo, etc. Essa insistência, entretanto, não atenua as objeções de
que é passível o Pós-cursilho em razão de seu caráter vivencial. Aliás,
analogamente, os cursilhos se orientam na mesma linha "vivencial", que
como vimos merece sérias reservas, embora também neles se recomende o
estudo doutrinário como "imprescindível, não só para nos aprofundarmos
em nosso cristianismo, senão também para realizarmos uma ação apostólica
que seja realmente eficaz" (rolho "Estudo", p. 19).
22) Note-se
que essa doutrina é chamada de "tradicional" por já ser clássica em
Cursilhos. Note-se também o emprego da palavra "convivência" nesse
texto: é ela usada aí — e também em outros escritos cursilhistas — como
sinônimo de "Encontro".
23) Como já notamos, os rolhos que,
utilizamos nesta Pastoral são sempre os do Secretariado Nacional de
Cursilhos da Espanha (Madrid, 1968).
24) Em publicações
cursilhistas é comum a apresentação da vida cristã como algo alegre,
gozoso. Em contrapartida, minimaliza-se a vigilância contra o perigo de
pecar. A já citada contribuição da Nicarágua ao III ELA corrobora
semelhante minimalização ao condenar "a apresentação de um Cristianismo
que consistia em não pecar" ("Testimonio", n.° 45, p. 38). O mesmo
pensamento pode ver-se em Sebastián Gayá Riera, "Reflexões...", p. 55:
"Mais do que vivermos sob o pavor das ocasiões de pecado e dos inimigos
da alma [...]".
É preciso, sem dúvida, não esquecer que o
Cristianismo é vida, mas, como diz São Paulo (2 Cor. 4, 7), é uma vida
que guardamos em vaso frágil. Daí a necessidade da vigilância continua,
segundo o conselho de São Pedro (1, 5, 8-9), contra o demônio, que "como
leão furioso está à espreita para nos devorar". O conselho de Jesus
Cristo é no mesmo sentido: "Vigiai e orai para que não caiais em
tentação" (Mat. 26, 41).
A mesma minimalização ressuma da censura
contínua ao "moralismo", ao "cristianismo de cumprimento de preceitos",
ao qual se oporia o cristianismo do amor, pois é o amor que há de
vivificar os atos do cristão. Conceitos tais podem ver-se no livro
citado do Pe. Comblin, "A Fé no Evangelho" (obra recomendada por
"Alavanca", órgão oficial do Secretariado Nacional de Cursilhos do
Brasil p. 31). — Tal maneira de agir está na linha do abrandamento do
senso do pecado, lamentado por Pio XII como uma das chagas do mundo
hodierno, e esquece a palavra de Jesus Cristo que, no cumprimento dos
Mandamentos, via a prova do amor: "Si diligitis me, mandata mea servate"
(Jo. 14, 15). De onde, no cumprimento dos Mandamentos temos o amor de
Deus. Nada mais belo do que "o cristianismo de cumprimento de
preceitos".
25) Também se lêem artigos que, tratando da
penitência, não a restringem ao cumprimento do dever, em outros números
de "Alavanca", como o n.° 54, de março de 1971, p. 13. No entanto, à p. 7
deste mesmo n.° 54 da revista, encontra-se outro artigo que expõe uma
noção de penitência absolutamente oposta à tradicional.
26)
Censurando, por seu turno, "a santidade tristonha" (leia-se: séria),
"Reflexões...", de Sebastián Gayá Riera, às pp. 98-99, elogia a explosão
de alegria desbragada, ou seja, sem medida, desordenada: "Cumpre sermos
impulsiva a desbragadamente alegres. Com alegria sã, "contagiosa", até
ruidosa se às vezes for preciso [...]. Fulano [...] é um "tio"
estupendo, tem fábrica de anedotas e a gente se escangalha de rir ao seu
lado...".
27) Eis a nota da revista, na última coluna da página
4: "PALAVRÕES, NÃO! / A circular do SNCC, recebida pelo nosso
Secretariado, recomenda uma observância rigorosa ao "palavreado dos
ralhos". O Presidente pede que se insista junto às Escolas de Dirigentes
para que os "palavrões" sejam abolidos definitivamente, pois nunca
fizeram parte do método de Cursilho".
28) A concepção igualitária
da Igreja, povo de Deus, onde a dignidade de todos é uma só, havendo
diversidade apenas de funções, tornou-se idéia comum no III ELA. Foi
objeto do trabalho apresentado pelo México, trabalho que sob esse ponto
de vista mereceu especial recomendação do III ELA ("Alavanca", n.° 67,
p. 33). Na contribuição do México ("Testimonio", n.° 45, pp. 59 ss.):
a)
censura-se a concepção, que "durou tantos séculos" (p. 63) e se acha no
ensinamento de Leão XIII, repetido por São Pio X (Encíclica
"Vehementer"), segundo a qual o leigo é aquele que obedece na Igreja ao
Clero e o honra (p. 62);
b) declara-se inadequada a posição firmada por Pio XI, que ao leigo atribuía uma participação no apostolado hierárquico (p. 63);
c)
declara-se, outrossim, que todos, "sacerdotes, bispos, religiosos" e
leigos "participam de uma mesma missão comum: [...] se bem que,
naturalmente, cada um deva exercê-la com funções e modalidades
distintas" (p. 63); assim, "de um modo que lhes é próprio, os leigos são
igualmente responsáveis pela Igreja mesma, embora seja verdade que há
uma diferença funcional entre clero e laicato" (p. 64);
d) diz-se
ainda que "fica inteiramente superada" a idéia de que os leigos são
membros da Igreja subordinados aos clérigos (p. 64), e se conclui: "o
diálogo e a discussão dos problemas eclesiais com o laicato na Igreja é
já um fato fundamental que por direito compete aos leigos" (p. 64);
e) declara-se, além disso, que devem os leigos, em certo sentido, participar do governo da Igreja (p. 65).
Tomados
estes pontos em seu conjunto, fixa-se a idéia de que a diversidade
existente entre Hierarquia e povo, na Igreja, é apenas de função e não
de dignidade. Não admira que o trabalho do Equador e Peru apresentado ao
III ELA tenha reafirmado taxativamente a igualdade radical do povo de
Deus, declarando legítima só a diversidade de funções e carismas
("Testimonio", n.° 45, "Adendum", p. XVI). E que tenha mesmo levado tal
concepção à sua conseqüência natural, negando à Hierarquia o papel de
intermediária entre Deus e os homens, segundo ensina a Tradição, depois
de São Paulo (Heb. 5, 1): pro hominibus constituitur sacerdos: "a
hierarquia não é nenhum intermediário da Comunidade junto ao Padre,
senão que faz que através de seu serviço ministerial, se dê o encontro
pessoal da comunidade com o Senhor" ("Testimonio", n.o 45, "Adendum", p.
VI).
Freqüentemente apelam os autores da opinião que aqui
censuramos, à Constituição "Lumen Gentium", n.° 32, que afirma uma igual
dignidade de todos os cristãos. A mesma Constituição consigna a
distinção de funções (doutor-discípulo, pastor-ovelha), que pela ordem
natural supõe urna dignidade maior no mestre e no pastor do que no
discípulo e na ovelha. Ademais, aos textos referidos juntam-se outros da
própria "Lumen Gentium", como o seguinte: "O sacerdócio comum dos fiéis
e o sacerdócio ministerial ou hierárquico se ordenam um ao outro,
embora se diferenciem na essência e não apenas com grau" (n.° 10). É
explicável que os teólogos procurem determinar o justo teor de tais
afirmações. — Não está nos limites desta Carta Pastoral solucionar este
problema. Entretanto, seja qual for a posição que perante ele se tome,
nenhum católico genuíno pode aceitar as conclusões que da "Lumen
Gentium" tiram — ora explícita, ora implicitamente — certos documentos
cursilhistas. Por exemplo, jamais um verdadeiro católico deixará de
reconhecer, no citado princípio que Leão XIII e São Pio X (Encíclica
"Vehementer") enunciam, a expressão autêntica da doutrina que a Igreja
sempre ensinou e ensinará até o fim dos séculos.
Encerramos esta nota
observando que São Pio X, uma das cousas que condenava no "Sillon" era,
precisamente, o nivelamento entre Sacerdotes e leigos nas reuniões que
promoviam: "A camaradagem mais absoluta reina entre os membros [...]
Mesmo o Padre, quando nele ingressa, abaixa a eminente dignidade de seu
sacerdócio e, pela mais estranha inversão de papéis, se faz aluno, se
põe no nível de seus jovens amigos e não é mais do que um camarada"
(Carta Apostólica "Notre Charge Apostolique", de 25 de agosto de 1910;
AAS, 2, p. 621).
29) Em "Interrogantes y Problemas...", pp.
376-377, D. Hervás escreve; "nos cursilhos de Cristandade há vivências,
no sentido em que os psicólogos e pedagogos usam esse termo, mas não há
sugestão. Pois neles se pratica precisamente o contrário do que pode ser
causa de sugestão, quer sob o ponto de vista da exposição das idéias
[...], quer quanto ao "prestígio da autoridade", pois os Sacerdotes e os
leigos dirigentes põem-se num plano de total igualdade com seus
companheiros, até chegar ao detalhe de nem sequer ocupar lugar
preferencial na capela, nem na sala onde se lhes fala, e nem mesmo nos
lugares que ocupam no refeitório".
30. O que acabamos de afirmar,
sabemos por testemunhos de vários cursilhistas. Que seja parte do
programa de Cursilhos, aparece, por exemplo, nesta afirmação de
"Alavanca", órgão de Cursilhos do Brasil, n.° 66, 1972, p. 13: "Os
cursilhistas não executam nenhum trabalho. Levantam-se e saem para as
primeiras orações do dia. Quando voltam, as camas estão arrumadas, o
café servido, as privadas limpas. Não se vê ninguém nos corredores. Só
no último dia os "serviçais" aparecem. São antigos cursilhistas que vão
fazer o trabalho para seus irmãos. Numa das turmas, um cirurgião famoso,
assistente do professor Zerbini, trabalhava na cozinha. Ninguém se
sente diminuído; pelo contrário, parecem executar o trabalho com a maior
alegria".
Nada há de mau em que superiores executem trabalhos mais
humildes. O censurável é que isso se faça num ambiente nivelador e com
conotações igualitárias. O que não se dá sem detrimento da autoridade e
do papel dirigente que têm certas classes sociais, como salientou várias
vezes Pio XII (cf. "Por um Cristianismo Autêntico", pp. 153, 171-175).
No
mesmo sentido nivelador corre o fato contado por um Padre que foi ao
cursilho, de batina. Foi ele interpelado por usar traje talar, e o
censuraram declarando que "a batina atrapalhava", isto é, marcava uma
distinção que não estava de acordo com o ambiente próprio de Cursilhos
(releia-se, a esse respeito, o texto de São Pio X sobre "Le Sillon", que
reproduzimos no tópico número 31, nota 6).
31) Está dentro da
mesma mentalidade, quanto ao tratamento igualitário e proletarizante
dado a Nosso Senhor Jesus Cristo, o artigo "Meu papo com Cristo",
publicado em "Alavanca", n.° 63, 1972, pp. 20-21. Leiam-se por exemplo
os textos seguintes:
"Hoje quero bater aquele papo com Cristo. Mas um
papo que não exija "cuca", que não exija esforço maior do que o
descanso absoluto que espero encontrar, hoje e sempre, na minha própria
fé Nele.
Cristo está aqui ao meu lado, sentado na minha cama. Sua
figura me agrada logo: "super-prá frente", calça lee azul marinho e
túnica azul clara. Nos pés, um par de tênis também azul e, ao redor do
pescoço, uma corrente dourada onde vejo pendurada uma cruz. Da cabeça
saltam, pacificamente, cabelos claros e lisos que vão até os ombros.
Como o meu Cristo é bárbaro! [...] Começo a falar.
Olha, Cristo, fiz
um montão de descobertas ultimamente, e a maior de todas foi esta: amo
Você [...]. Você precisa ver a minha alegria ao perceber que o meu
"pecadão" se torna um "pedacinho" diante da potência de perdão que Você
é. E o que eu acho mais fabuloso nisso é que Você não exige que a gente
peça perdão: pelo arrependimento, basta a gente sentir que errou e já se
sente, também, aceito por Você".
No "Guia do Coordenador" (edição do
Secretariado Nacional de Cursilhos de Cristandade do Brasil, 1971, pp.
40 e 50), Nosso Senhor é igualmente tratado de "Você".
32) Mesma
observação se aplica aos conceitos emitidos pelo Pe. Augustinovich em
"Vivencia de la lglesia Comunidad", pp. 72 e 88-89, quando invectiva a
dependência econômica dos povos subdesenvolvidos, censura as atuais
estruturas, e, prevenindo embora a objeção, não declara qual a estrutura
justa que preconizaria para substituir as existentes.
33) No
mesmo sentido de mudança total das estruturas, preconizada por
cursilhistas, veja-se o Pe. Augustinovich, "Vivencia de la Iglesia
Comunidad", pp. 18, 63, 68. — E Sebastián Gayá Riera, em "Reflexões para
Cursilhistas de Cristandade" (Secretariado Nacional de Cursilhos do
Brasil, São Paulo, 1970, p. 180), escreve: "Cumpre chegar com tino,
mesura e sem violência, às transformações MAIS RADICAIS, até que seja
realidade o destino comum dos bens" (o destaque em versalete é nosso).
34)
Na revista do Secretariado Nacional de Cursilhos da Venezuela, o Pe.
Augustinovich encampa a mesma doutrina censurada por São Pio X. Declara,
de fato, que a Igreja tende a uma "co-responsabilidade universal de
todo o povo de Deus", de maneira que não há obediência onde há mera
execução de mandamento superior, porquanto a obediência deve proceder de
"uma entrega espontânea por íntima convicção", pois hoje o mundo "já
não aceita mais a autoridade pelo simples fato de ser autoridade"
(artigo "El pequeño mundo inseguro - Ciertos desniveles", em "Trípode",
n.° 92, maio de 1972, p. 11).
35) "Os cursilhistas [...] devem
participar dessa vida comunitária através da vida de grupo (decúria);
através da comunicação com a comunidade testemunhal da equipe de
dirigentes (trabalho de corredor) e através da integração efetiva nos
vários atos de piedade e ação que se realizam durante o Cursilho" (II
Encontro Mundial, relação de Portugal, em "Temas do II Encontro Nacional
de Secretariados Diocesanos de Cursilhos de Cristandade do Brasil", p.
48).
36) "A visão comunitária sempre foi algo peculiar ao
Movimento de Cursilhos de Cristandade" (conclusão final do II Encontro
Mundial de Delegados. Nacionais de Cursilhos de Cristandade, citada em
"II EB", p. 50).
37) Veja-se "II EB", p. 50. O mesmo princípio é
exposto no trabalho da Colômbia apresentado ao II Encontro Mundial de
Delegados Nacionais de Cursilhos: ali se declara, com efeito, que "não
se pode insistir na conversão individual, desligando-a da conversão
comunitária"; e se cita a seguinte passagem de Gustavo Gutierrez: "esta
visão atenta a valores estruturais, ajudará os cristãos a não cair na
falácia de propugnar uma mudança pessoal desvertebrada de
condicionamentos concretos, como etapa necessariamente prévia a toda
transformação social. Aqueles que se empenham nessa atitude em nome de
um vago humanismo e de um espiritualismo desencarnado, só conseguirão
ser cúmplices de uma postergação indefinida das mudanças necessárias e
urgentes. Isto supõe que se atue simultaneamente sobre as pessoas e as
estruturas, posto que elas se condicionam mutuamente" ("Encontro
Mundial..., Temas do 3.° Dia". p. 56). — Logicamente, diríamos, daí se
deduziria que não é o homem que influi na sociedade por sua adesão à
verdade e ao bem; é a sociedade que o faz reto e bom. Ou, quando muito,
ambas as coisas são simultâneas, de maneira que a própria retidão do
homem está condicionada ao meio social.
À mesma conclusão se chega,
quando se observa em que sentido falam Cursilhos de vocação pessoal do
fiel. Porquanto, tal vocação pessoal está subordinada à comunidade, pois
é nesta e em favor desta que deve realizar-se a vocação pessoal: "O
Cursilho de Cristandade deve ajudar os participantes a descobrirem a sua
vocação pessoal, para realizá-la em comunidade e EM FAVOR da comunidade
(humana e eclesial)" ("Documento de Itaici", em "Alavanca", n.° 67, p.
30 — o destaque em versalete é nosso).
No mesmo sentido soa a
passagem seguinte do "Documento de Itaici", a qual reproduz quase ipsis
litteris um tópico da contribuição da Colômbia ao III ELA: "o Movimento
deve caminhar decididamente no sentido de que as Ultreyas e as Reuniões
de Grupo sejam verdadeiras comunidades cristãs. Porque só a comunidade
cristã é o clima onde um cristão pode passar de uma fé infantil a uma fé
adulta, de uma fé individual a uma fé comunitária" ("Alavanca", n.° 67,
p. 34 — destaque nosso. Cf. "Testimonio", n.° 45, p. 94). — Entre
parêntesis, o que se entenderia por "fé comunitária?" Estaríamos diante
de um ressurgimento do averroísmo, com a unidade do intelecto agente, de
maneira que fosse possível um ato intelectual emitido por uma faculdade
não já individual, mas de toda a comunidade?
Uma tal concepção
comunitária da vida, aceita-a a delegação do México ao mesmo III ELA,
uma vez que julga "a planificação universal, a unificação do mundo, a
socialização progressiva dos diversos aspectos da vida humana, desde os
econômicos até os espirituais e culturais, etc.", como fatos
"definitivos", "isto é, que não têm marcha à ré no acontecer humano"
("Testimonio", n.° 45, p. 68).
38) Semelhante simpatia se mostra
de vários modos. Por exemplo, o Pe. Augustinovich, no seu livro
"Vivencia de la Iglesia Comunidad", faz crer que a trilogia hegeliana e
marxista, "tese-antítese-síntese", é do patrimônio católico (pp.
112-113). Na mesma ordem de idéias, à p. 143, pede uma convergência
doutrinária no diálogo com marxistas. Item, mesma idéia subjacente à p.
159: "Bem-vindo o diálogo com os marxistas e com os ateus, porém com a
condição de que não se converta em SIMPLES SINCRETISMO" (O destaque em
versalete é nosso). — Porque o simples sincretismo é indesejável? O
contexto da obra torna claro que o é pelo fato de que no sincretismo não
se chega a superar as divergências, o que só é possível através de um
diálogo que conduza a uma síntese superior. Se assim é, como não achar
incompleta a verdade revelada, o depósito da Revelação confiado à Igreja
Católica?
39) Semelhante tendência surge, aqui e acolá, em
publicações cursilhistas. Veja-se, por exemplo, como o Pe.
Augustinovich, em "Vivencia de la Iglesia Comunidad", p. 89, critica o
capitalismo e o socialismo: "Nem tudo é mau no Capitalismo, nem tudo é
bom no Socialismo". — Ou seja: o capitalismo é mau, mas tem algo de bom;
ao passo que o socialismo é, na sua maior parte, bom, tem porém algo de
mau. Pio XI ensinava outra doutrina, isto é, que o pouco de verdade que
há no socialismo — como se pode descobrir em qualquer erro — não é
suficiente para justificá-lo, pois pela sua concepção fundamental é ele
oposto diametralmente ao Catolicismo, uma vez que "se funda numa
concepção própria da sociedade humana, oposta à verdadeira doutrina
cristã. Socialismo religioso, socialismo cristão são termos
contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e
verdadeiro socialista" (AAS, 23, p. 216).
É ainda a simpatia pelo
marxismo que ressuma à p. 91 do citado livro, onde se elogia a
colaboração da Hierarquia com um governo comunista qual o do Chile.
Outra vez, estamos diante de doutrina nova, com relação à ensinada por
Pio XI na "Divini Redemptoris": "Intrinsecamente mau é o comunismo, e
não se pode admitir, em campo algum, a colaboração recíproca por parte
de quem quer que pretenda salvar a civilização cristã. E se alguém,
induzido em erro, cooperasse para a vitória do comunismo em seu país,
seria o primeiro a cair como vítima do próprio erro" (AAS, 29, p. 96).
40) Duas observações que se completam, no sentido de indicar a orientação dada na formação cursilhista:
a)
É freqüente, no órgão oficial do Secretariado Nacional de Cursilhos do
Brasil, "Alavanca", proporem-se obras de autores cujas idéias vêm
envoltas em expressões ambíguas, quando não taxativamente destoantes da
Tradição católica. Além do exemplo, comentado acima, do livro de Louise
Rinser, o número 65 de "Alavanca" recomenda, na secção de A. M.
Cantatore, "A Redescoberta do Homem", do famigerado IDO-C, que contém o
"Dossier Teilhard de Chardin"; item, "Viva Jovem!", de Marcelle Auclair,
com uma visão naturalista da vida; item, "A Fé no Evangelho", do Pe.
Comblin, cuja noção de fé já comentamos, e que tem, além disso, outras
expressões igualmente inquietantes como esta, em que, ao lado de
"soldados inimigos", enumera-se a prostituição como condição de vida
aceitável: "Jesus não condena os homens pelas situações em que foram
colocados: publicanos, soldados inimigos, prostitutas; não julga ninguém
por sua condição" ("A Fé no Evangelho", p. 32), ou estoutra: "tanto a
teologia de São Paulo COMO a de São João construíram A SUA interpretação
do FENÔMENO "JESUS" a partir das especulações do Antigo Testamento
sobre a sabedoria. Jesus tornou-se A SEUS OLHOS a encarnação da própria
"sabedoria" de Deus" (p. 22 — o destaque em versalete é nosso). — Um
modernista não teria outra linguagem. Para ele, como para o Pe. Comblin,
Jesus é a "sabedoria de Deus", não objetivamente para Anjos e homens;
mas apenas subjetivamente, para aqueles que, como São Paulo e São João,
assim o concebem! — Esta observação recebe nova luz ao lado da que
segue:
b) Aos cursilhistas é dada a norma de não lerem senão os
livros melhores: "Não terás tempo para ler tudo. Nem te faz falta.
Precisamente por isso deves ler o melhor" (Sebastián Gayá Riera,
"Reflexões para Cursilhistas de Cristandade", p. 81; cf. também D. João
Hervás, "Los Cursillos de Cristiandad, Instrumento de Renovación
Cristiana", pp. 355-356). Face a tal norma, é forçoso concluir que a
revista oficial de Cursilhos do Brasil só recomenda os livros melhores.
Em outras palavras: através dos livros apresentados pela revista,
pode-se deduzir qual a orientação doutrinária de Cursilhos.
41) Eis, na íntegra, o texto referido:
"Sabem
muito bem nossos sacerdotes dirigentes que em nossos cursilhos não se
explicou jamais a Graça com a rigorosa e fria atitude acadêmica das
aulas teológicas, mas sim proclamando kerigmaticamente a liberalidade de
Deus, que nos chamava em Cristo a participar da vida divina. Sem
embargo, em 1949 e na década seguinte, eram outros os tempos, e era
preciso fazer apologética da ortodoxia dos Cursilhos citando em nossas
publicações só ou prevalentemente os autores e textos tradicionalmente
admitidos por todos; Por isso, os profanos creram às vezes que no
Cursilho se explicava a Graça segundo as noções e distinções frias e
abstratas — se bem que sempre válidas — dos manuais de Teologia em
curso; que explicávamos o dom de Deus como se fosse uma cousa e não uma
vida; que nossa doutrina sacramental levava ao sacramentalismo e não ao
encontro pessoal com Cristo. Não podíamos perder tempo dando extensas
respostas a todos, se bem que alguns poderiam ter-nos pedido explicação
antes de lançar opiniões inexatas e aventureiras. Tudo isto é verdade.
Mas
passou-se algo de transcendental na vida da Igreja: o Concílio Vaticano
II dava carta de cidadania a uma visão mais cristocêntrica da
Eclesiologia, à proclamação do Kérigma, à renovação da liturgia" (rolho
"Meditações", p. 5).
42) Alocução ao Seminário Lombardo, em 7 de dezembro de 1968, em "L'Osservatore Romano", de 8 de dezembro de 1968.